Vitor Pereira Jr
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09/09/2017 20h18
Um texto só de vogais

     A todos os lusófonos amantes da literatura e aos amantes de brincar com seu idioma em geral, apresento a seguir este texto, o único da língua portuguesa escrito só com vogais, e que contém ainda a maior frase da língua portuguesa escrita só com vogais. Após o texto há uma nota explicativa, pois muitas palavras não são de uso comum. Eis o texto:

— Eia, iaiá!

— Oi, ioiô! E aí?

— Iaiá, ó a aiôuea aí.

— É. Ao Aoí a aiôuea.

— Aê, iaiá, o Aoí ia a Uauá, ao Oio, a Oiã, ou a Aião?

— Ai, ai! O Aoí ia a Uauá, ô. O Aoá ia a Oiã e a Aião. Aoí é uaiuai e iaô, aí ia a Uauá, ué.

— E a Aião?

— O iaô uaiuai Aoí ia a Uauá e a Aião.

— O Aoí é iaô, é?

— É, uai. E Oiá é a aia.

— É? Uau! E o Aoá?

— Ui...! Aoá é auê.

— Ei! E eu, Iaiá?

— Uai! O ioiô é o ó!...

— Ê, iaiá...!

— Ê, ioiô...!

 

NOTAS:

 

GLOSSÁRIO:

Aiôuea: gênero de planta no Brasil

Aoí: nome bíblico (Cf. 1 Cron 11)

Uauá: município na Bahia

Oio: região na Guiné-Bissau

Oiã: região em Portugal

Aião: região em Portugal

Aoá: nome bíblico (Cf. 1 Cron 8 e 2 Samuel 23: 9)

Uaiuai: etnia indígena do Brasil

Iaô: em religiões afrobrasileiras, é o filho-de-santo já iniciado

Oiá: Orixá dos ventos e raios, também conhecida como Iansã

Aia: tutora

Auê: (gíria) confusão, bagunça

Ó: expressão popular do nordeste do Brasil, diminutiva de “Ó do Borogodó”, e expressa sentimento superlativo de uma qualidade.

 

VERSÃO COMPARATIVA:

      A princípio, o texto acima, só de vogais, pode parecer bastante estranho devido ao pouco uso e ao regionalismo de certas palavras. Mas permitam-me ainda escrever o mesmo texto, só que com palavras conhecidas. O leitor se certificará de que, após esta comparação, o apresentado texto de vogais fica perfeitamente inteligível. Eis uma versão que substitui as palavras acima usadas:

— Eia, Maria!

— Oi, João! E aí?

— Maria, olha a hortelã aí.

— É. Ao Pedro a hortelã.

— Aê, Maria, o Pedro ia a Aracaju, à Paraíba, a Terezina, ou a Belém?

— Ai, ai! O Pedro ia a Aracaju, ô. O José ia a Terezina e a Belém. Pedro é paraense e seminarista, aí ia a Terezina, ué.

— E a Belém?

— O seminarista paraense Pedro ia a Terezina e a Belém.

— O Pedro é seminarista, é?

— É, uai. E Santa Efigênia é a padroeira.

— É? Uau! E o José?

— Ui...! José é confusão.

— Ei! E eu, Maria?

— Uai! O João é o máximo da confusão!...

— Ê, Maria...!

— Ê, João...!


Publicado por Vitor Pereira Jr em 09/09/2017 às 20h18
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24/08/2017 09h30
Um texto sem as vogais A, I, O, e U

     Denner de Rezende Scherer é de Verê. Ele é gerente de redes, crê em preces de fé desde neném, veste Lee bege de nerd, serve-se de crepe, e bebe tererê. De mês em mês ele elege escrever entre três e sete teses em rés de web: é remetente de teses célebres em “www.lente.net”. Percebe-se: entre escrever e ler, Denner prefere veementemente escrever. Cem vezes escrever. É mestre em escrever, e tem sede de escrever bem. E ele mede se escreve bem, em empreender reescrever ´té dez vezes, ´té escrever bem. Ele escreve: “Lembre-se, ser mestre nem sempre é ser excelente: é entender ter deveres e meter-se de frente, sem temer nem tremer. E pense, nem sempre ele, mestre, sente receber este presente: de ler-se. Ler depende de gente de mente perene e leve. E de repente, em vez de pretender ser mestre em escrever, prefere-se preceder-se, e, sem perder esse leme, se tente ler bem. Pense brevemente, e se dê este presente decente: Ler! Ler é crescer, cerne de semente em verdes estepes.” Excelente. É sem precedentes este célebre Denner Scherer.



Publicado por Vitor Pereira Jr em 24/08/2017 às 09h30
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07/08/2017 20h06
A primeira publicação

Saudações, amigos leitores e escritores!

Hoje eu quero contar sobre como embarquei na carreira de escritor publicado. Como muitos de nós escritores, escrevia desde criança, compartilhando poemas e estórias com a família e amigos da escola. Em 2006, guardava eu uma penca de poemas e contos só comigo mesmo, até que resolvi publicá-los na internet sem qualquer compromisso, apenas para continuar compartilhando poemas e estórias, agora no meio digital (Era 2006, e para alguém nascido em 1980, isso era uma novidade para mim).

E eis que um belo dia, um editor entra em contato, comenta que gostou de um de meus contos de terror, “Natal em Allanshire”, e me convida para publicá-lo em uma coletânea. O editor era ninguém menos que o escritor Edson Rossatto, da Andross editora, e a antologia de terror era nada menos que a antologia Noctâmbulos. Surpreso e animado pelo convite, fui tirando minhas dúvidas e me envolvendo com o projeto, tudo novidade para mim naquela época (E que conste que lá nos idos anos de 2007, o contato com os escritores e as atualizações sobre a organização do livro se davam pelo bom e velho Orkut).

Ainda perplexo com o processo, só me dei conta de que um filho literário havia nascido quando peguei o livro em mãos e o folheei. E lá estava ele, meu conto, publicado em um livro impresso!! Qualquer um que tem seu conto impresso sabe do que estou falando. E para cada vez que outro filho nasce, a emoção é a mesma. De lá para cá vieram outras parcerias com a Andross em vários outros contos e poesias publicados em suas antologias: Mentes Inquietas, Sonhos Lúcidos, O Segredo da Crisálida II, Livre para Voar, Xeque-Mate, e o primeiro romance fix-up da Andross editora e classificado como um dos melhores livros de terror de 2015 pela Biblioteca do Terror, o King Edgar Hotel (Edson Rossato mal sabia que enquanto ele revelava ao vivo para todos os escritores da edição do Livros em Pauta de 2014 sobre o projeto recém-saído de uma tal antologia toda vivida em um mesmo hotel, lá estava eu, sentado logo à frente dele naquela sala, já decidindo que o último conto do King Edgar Hotel tinha que ser meu! E lá mesmo surgiu a ideia do último conto do King Edgar Hotel, bem na frente do editor!).

Hoje, tanto com a Andross quanto em parcerias com outras editoras, tenho 18 contos e 27 poemas em publicações impressas. E sei que muito tenho ainda a aprender, conhecer, e, claro, escrever.

E foi assim que, graças ao convite inicial do escritor e editor Edson Rossato (que lá estava lendo meu conto pela internet certa feita em 2007) e à Andross, tive a oportunidade de conhecer muitos escritores e editores, trocar ideias, receber e dar incentivos a escrever e publicar, e, principalmente, a oportunidade de sempre me aprimorar. Por isso, se sua imaginação o chama a contar estórias, não recuse o chamado. Trilhe sua jornada, aprenda com os companheiros de viagem, e mãos à obra!

 

P.S.

E para recordar os exatos dez anos em que comecei a publicar em livros impressos, aqui está o link para o projeto da antologia de terror Noctâmbulos, onde jazem contos sobrenaturais, de suspense e de terror!http://www.andross.com.br/livro_publicado.php?evto=108


Publicado por Vitor Pereira Jr em 07/08/2017 às 20h06
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02/08/2017 20h01
Para ler como um escritor

 

Para ler como um escritor – Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los – de Francine Prose, escritora e professora de literatura em Harvard por 20 anos, e com acréscimos à edição brasileira de Italo Moriconi – é a dica para um excelente mergulho no mundo da literatura universal.

 

De um jeito didático e apaixonado, Prose nos apresenta todos os aspectos da escrita por meio do método da “leitura atenta” (close reading, no original), onde o leitor adquire a competência de se atentar profundamente a todos os aspectos do texto literário, desde a escolha das palavras até o estilo empregado no texto, a fim de entender cada escolha do autor. Prose começa detalhando sobre a escolha das palavras, e vai se aprofundando nas frases, parágrafos, narração, até chegar ao personagem, diálogo, detalhes nas narrativas, e gesto. Prose também reserva um capítulo saboroso sobre aprender com Tchekhov.

 

As dicas literárias de Prose estimulam o escritor a como decidir sobre a melhor escolha para cada palavra de uma frase, sobre como cada frase deve ter a inteligibilidade e a graça de impressionar o leitor, prendendo-o ao ritmo da narrativa, sobre o efeito de uma quebra de parágrafo, dentre muitos outros preciosos ensinamentos.

 

Esmiuçando vários trechos de narrativas clássicas da literatura e com uma proposta de autores preferidos para se ler e estudar IMEDIATAMENTE, fica impossível deixar de ter em casa uma coleção de Isaac Babel, Ernest Hemingway, Franz Kafka, Katherine Mansfield, Virginia Woolf, Anton Tchechov, entre tantos outros.

 

Para ler como um escritor é uma verdadeira aula impressa de literatura para se guardar na primeira prateleira da sua estante e visitá-la muitas e muitas vezes.  


Publicado por Vitor Pereira Jr em 02/08/2017 às 20h01
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26/07/2017 16h51
Dia dos avós

     Neste dia dos avós, gostaria de compartilhar esta crônica sobre meu avô, que se foi ano passado.

     O último abraço

       O último abraço, embora não quisesse, sabia bem no fundo mais apertado da alma que era o último abraço. Por esta razão não foi um abraço qualquer.
       Aconteceu em uma manhã cinzenta e chuvosa. Eu, chegando na meia vida, e vovô, no termo. Ele, que sempre parecia estar onde queria estar. Ele que, como poucos podem dizer, viveu uma vida plena. E, como se tivesse escolhido viver até ali, escolhia de bom grado estar ali, na linha de chegada.
       Mas o último abraço não começou como abraço. Começou com apertos de mão, cafunés, beijos no rosto, graças e juras. Só no final ele veio – o último abraço –, zeloso, demorado, doído e solene. Abraço que assou pão, cuscuz, que pintou quadros, que montou miniaturas, que estudou italiano sem precisar, que lia por prazer, que debatia História, que ouvia música clássica, que assistia ópera, que levou os netos a teatro, balé e museu, que criticava com dureza meus poemas e meus contos, e que sempre gostou de meus desenhos; abraço que foi meu exemplo, que foi meu padrinho de crisma, que dividia as leituras da missa comigo todo domingo; abraço que acalentou meu filho; que zelou esposa, filhos, netos e bisnetos; aquele abraço no topo da escadaria, na chegada e na saída. Mas, como último abraço, era um abraço de nunca mais. Nunca mais escutaria sua voz ou aspiraria seu cheiro, nunca mais sentiria sua respiração, seu calor, nem cada parte ou forma de seu abraço em meu abraço. Nossos corações nunca mais se sentiriam batendo um contra o outro. Com ele se iam o pão assado, as músicas clássicas, as óperas, as leituras. Nada disso eu levaria, tudo mortal.
       Assim foi o último abraço, um adeus à mortalidade, às coisas frágeis. Um adeus desabraçado. Mas o que ficou abraçado em mim quando vovô dispersou-se de volta ao universo, não foram as coisas frágeis e mortais, foram justamente os tesouros que não se corroem nem ninguém nos pode tirar: a honestidade, a determinação, a honradez, a dignidade, a lealdade, a sapiência, a integridade, o zelo, a bondade, o senso de dever. Esses tesouros foram a herança que abracei. E, abraçados em mim para sempre, para minhas futuras gerações os entregarei, como abraços. Imortais.


Publicado por Vitor Pereira Jr em 26/07/2017 às 16h51
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