Vitor Pereira Jr
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F090 *
     No ponto mais distante do Universo, paira pelo cosmos o único planeta habitado, além da própria Terra. É o único astro vagando em torno de uma estrela de pequena grandeza, que há bilhões de anos havia se desgarrado para fora de sua galáxia natal, devido a uma mudança de rota causada pela reação inesperada de um único átomo de Hélio.
     A existência de vida nesse planeta remoto foi ainda mais improvável do que na Terra e começou há muito mais tempo. A evolução das espécies foi muito mais árdua, em um ambiente muito mais agressivo. Mesmo assim, o desenvolvimento de uma civilização evoluída aconteceu muito mais recentemente do que na Terra. Porém, como esse planeta sempre esteve exilado da galáxia mais próxima, orbitando ao redor de um sol cinzento bem xoxo, sem qualquer lua para orbitar ao seu redor ou qualquer constelação para admirar à noite, seus habitantes precisaram sobreviver a um mundo muito mais ameaçador. Em um planeta hostil e sem astros celestes para instigar romantismos ou adoração a deuses, cedo os habitantes desse planeta desenvolveram progressivamente seu intelecto em tecnologias cada vez mais avançadas.
     Hoje, os habitantes mais evoluídos do planeta em questão, ao contrário dos terráqueos, já rastrearam todo o universo. Enviaram satélites, foguetes, robôs e astronautas para outros planetas, luas, estrelas. Cruzaram galáxias, aprenderam as propriedades dos buracos-negros, da antimatéria, e de quase todas as partículas atômicas. Apesar disso, seus habitantes são muito putos da vida. Tudo começou quando o primeiro ser pensante desse planeta olhou para o céu, fitou o crepúsculo de seu sol cinzento e sem graça, à espera de algo extraordinário à noite, e quando o último rastro de luz cinzenta sumiu no horizonte... nada. Só a cada 279 anos daquele planeta, durante duas semanas, seria possível avistar a olho nu algo além de seu sol no céu. É quando o planeta se aproximava da galáxia mais próxima. Ela aparecia no céu, mesmo de dia, com o formato de uma flor desabrochando e emitia uma luz roxa cintilante de beleza inigualável. Mas quase sempre chovia nessa época do ano e ninguém via nada. Com um cenário celeste tão monótono, os seres dominantes desse planeta começaram a imaginar que deveria haver algo de interessante lá fora. Foi a partir deste dia que teve início seu progresso científico.
     E quando eles descobriram a Terra, após terem descoberto praticamente tudo que é possível saber sobre este universo, ficaram ainda mais putos. Para eles, os seres humanos eram muito inferiores. Mas, na verdade, eles tinham era uma pitada de inveja pela posição dos terráqueos no cosmos. Os terráqueos tinham o 17º sol mais bonito de todo o universo, e a 4ª noite celeste mais bonita também. O sol deles era o 2º mais feio, e a noite celestial era a mais feia de todo o universo... mesmo. Eles ficaram fascinados pelas mitologias terráqueas e passaram a admirar os maias, os babilônios, os gregos e os egípcios. Mas os seres desse planeta não admitiam isso uns para os outros porque, além de estarem putos da vida, eles eram uns chatos orgulhosos. Um dos xingamentos que eles usavam entre si para desdenhar quem demonstrasse apreço pelas lendas mitológicas da Terra, poderia ser traduzido como algo do tipo: Você parece um camponês que acredita no mito de criação assírio, então vá adorar nosso sol cinzento. Se bem que seria muito difícil para um terráqueo entender a linguagem desses seres. O som que sai de suas bocas branquiais não se parece em nada com o som das cordas vocais dos terráqueos. O som mais próximo para um terráqueo pronunciar o idioma deles seria parecido com o som de gases sendo expelidos pelo intestino de um terráqueo. Assim, na linguagem deles, o planeta onde vivem pode ser pronunciado como PRRL. Os seres que vivem em PRRL são chamados de PRRL-Fssst, e os referidos seres dominantes que desbravaram o universo são chamados de VRT-PÓIM. E o xingamento traduzido acima é pronunciado assim: FFUÉÉÉÉIIINNN... fúin(!).
     Certa vez, durante a passagem da belíssima galáxia de PRRRÓP pelo planeta PRRL, um cientista VRT-PÓIM teve uma ideia. Ele estava muito puto, o que é um mau-humor consideravelmente perigoso para seres que normalmente estão putos. Chovia pela quinta vez seguida durante a passagem da galáxia. E foi esse sentimento de frustração que deu ao cientista essa ideia: ele iria enviar seu F090 à Terra. Então ele soltou um xingamento, cuja tradução para um terráqueo é coincidentemente muito próxima à própria pronúncia do xingamento, e acionou seu transportador de partículas antimatéria, que enviaria em poucos segundos seu robô preferido à Terra: o F090, um explorador intergaláctico com inteligência artificial.
     Segundos após, um cilindro do tamanho de um rolo de papel higiênico de folha dupla é materializado na atmosfera terrestre. Descendo de uma altitude de 6.000 metros, enquanto projeta pequenas cápsulas pela troposfera, o F090 certifica-se de sua localização e de seu destino na linguagem humana: Coordenadas espaciais 22.7-PIM-80.2-PIM-10.1-PIM: Hiperaglomerado M612, Superaglomerado de Virgem, Aglomerado Local, Via Láctea, Sistema Solar, Terra, Estados Unidos da América, Nova Jersey, Rua Elmer, Prédio 230, Apartamento 2, Quarto do casal John Cooper e Maria daCosta. Horário local: 23 horas e 39 minutos terrestres. Repetindo: Coordenadas espaciais 22.7-PIM..., interrompendo a radiocomunicação para registrar em video a passagem de meteoros pela mesosfera no céu noturno, através do acionamento de seu CIE — Chip de Inteligência de Exploração — e logo inibido por outro chip, o Chip de Inibição de Sensações Invejáveis. O CISI foi criado pelo cientista chato que inventou o xingamento daqueles que admiram as paisagens e culturas terráqueas. Imediatamente, o CISI envia uma mensagem, interrompendo a gravação da passagem da estrela cadente: Retome com a missão, seu robô FFUÉÉÉÉIIINNN... fúin(!) idiota. E assim F090 continuou a descida, adentrando na residência de seus destinatários por uma janela aberta: Prédio 230, Apartamento 2, Quarto do casal John Cooper e Maria daCosta....
     O robô intergaláctico flutua suavemente pelos cômodos da referida residência, analisando cada ambiente e certificando-se do êxito de sua missão, até que chega ao quarto de seus destinatários: Identificando Maria daCosta: 38,8 Kg de Oxigênio, 10,9 Kg de Carbono, 6,0 Kg de Hidrogênio, 1,9 Kg de Nitrogênio e 2,4 Kg de Fósforo, Enxofre, Sódio, Potássio, Cálcio, Magnésio, Zinco, Ferro... organismo revestido com 1,0 Kg em fibras de algodão e 0,1 Kg de ouro no dedo anelar esquerdo. Seus destinatários estavam dormindo e nem a humana Maria daCosta nem seu marido John Cooper desconfiaram da presença de F090 em seu quarto. Muito menos sabiam que há algum tempo estavam sendo analisados. F090 já havia visitado a Terra várias vezes e sondado o DNA de cada ser humano vivente. Seus cálculos biomatemáticos avançados determinaram 99,999979% de chance de sucesso de a experiência a ser realizada com os humanos Maria e John. Porcentagem de sucesso acima do esperado, que era de 99,999978%.
     Os diários de F090 relatavam tudo que era preciso saber sobre o casal de humanos. A fêmea Maria daCosta, por exemplo, que descende de africanos, latinos, ameríndios e mesopotâmios, ganhou pontos na avaliação de F090 também por apreciar as sete maiores delícias gastronômicas de todo o universo, identificadas pela civilização VRT-PÓIM: creme de amendoim, picolé de limão, pizza, coca-cola, pudim de leite, chocolate e dipirona sódica em gotas. Por sua vez, o macho John Cooper, que descende de escandinavos, eslavos, asiáticos e hebreus, ganhou pontos na avaliação do robô explorador também por gostar de filmes Cult, por escrever poesias desde os nove anos de idade, e pelo lá em dó sustenido que ele tirava de seu violão quando cantava a palavra robô em uma música que ele havia composto e que se chamava F090, meu robô intergaláctico. Não que John tivesse alguma conexão com o robô alienígena. É que uma vez o irmão caçula de John havia escrito uma estória e uma das palavras parecia ser F090, mas não era, e aí John acabou escrevendo uma música sobre isso, porque achou que F090 era um nome bem simpático, apesar de ter sido um engano de leitura da caligrafia do irmão. Então isso era apenas uma coincidência, mas F090 adorava coincidências e achava o lá em dó sustenido cantado junto com a palavra robô um dos sons mais divertidos desse quadrante do universo.
     A missão de F090, entretanto, chegou a sua fase final quando foi registrado que os humanos John e Maria, de comportamentos cosmopolitas e multiculturais e potencialmente férteis, passaram a viver maritalmente, com elevadas taxas de acasalamento. Essa última observação, in loco, teve que ser interrompida várias vezes pelo Chip Inibidor.
     Após todas essas análises, a inteligência biomatemática avançada de F090 concluiu que a união dos gametas de Maria e de John resultaria na concepção de seres humanos com a maior quantidade de fenótipos da maioria das civilizações que já existiram no planeta. Com essa conclusão, foi dado início à última fase da missão do robô intergaláctico.
     Quando a manhã raiou em Nova Jersey, os dois humanos Maria e John acordaram juntos e olharam ao mesmo tempo para um estranho cilindro coberto de uma luz verde que radiava por todo o quarto. Um tanto surpresos e assustados, ouviram a saudação do robô alienígena, no mais próximo da linguagem humana. F090 explicou para suas cobaias sobre a experiência que o cientista PRRL-Fsst estava aplicando naquele momento. Explicou como o cientista havia planejado repovoar o planeta Terra através de um casal de humanos potencialmente promissores. Com profunda tristeza e certa incredulidade, Maria e John ouviram de F090 sobre como foi liberada na atmosfera terrestre um vírus mortal que havia exterminado durante as últimas oito horas toda a espécie humana na Terra, com exceção de Maria e John, protegidos pela radiação de F090.
     No fundo, F090 sabia que o seu criador tinha aquela ponta de inveja dos seres humanos, e achava que os seres humanos é que mereciam um planeta como o dele. Mas o cientista resolveu dar uma segunda chance aos humanos através da nova civilização que surgiria a partir de Maria e John. Se tudo der errado, ele aplicaria aos humanos uma solução final, e toda a vida humana da Terra será extinta, dando chance a alguma outra espécie. Foi através de sua inteligência biomatemática que o próprio F090 convenceu seu criador a reconsiderar os padrões da experiência. A princípio, a preferência do cientista PRRL-Fsst era por um casal de cientistas chatos e orgulhosos, mas F090 o convenceu a mudar de opinião.
     Na verdade, F090 já estava com seu saco digital cheio dessa conversa de explorar o universo para seres putos da vida. F090 planejava ficar na Terra, que segundo ele mesmo havia constatado, era o lugar mais extraordinário de todo o universo para se estar. Ele queria que seus circuitos palativos degustassem do creme de amendoim e da dipirona sódica dos humanos. Entre outras coisas, entre muitíssimas coisas na verdade, entre quase todas as coisas possíveis de se registrar e experimentar e que F090 testemunhou, ele havia visto coisas que os humanos não acreditariam. Havia entrado em naves de ataque em chamas perto do ombro de Orion. Ele assistiu a danças de raios, colisões de galáxias, atravessou buracos-negros, viu andróides morrerem e não queria que esses momentos ficassem perdidos no tempo como duas gotas de metanosulfonato no oceano. Ele queria partilhar isso com pessoas legais como Maria e John, e queria que os novos humanos percebessem o quão afortunados eles são no universo inteiro, mas que não haviam se dado conta, como se o por-do-sol deles fosse de uma estrela cinzenta e sem graça, mas não é.


(Publicado em: "Sonhos Lúcidos", Andross Editora, 2013)
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 09/12/2010
Alterado em 29/04/2017
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