Vitor Pereira Jr
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Elogio ao Realismo

         Aviso desde já, leitor, que eu posso desapontá-lo.
         Até porque, isso aqui é um ensaio, e vou divagar em minhas especulações filosóficas, e isso sempre machuca alguém - geralmente o próprio filósofo.
         A minha especulação é a seguinte: A vida é justa?
         Antes de responder, pense bem. Mas não pense só na sua própria vida, porque vá que você vive em um mar de rosas, né. Pense na vida da maioria dos seres humanos de que você tem notícia, ao seu redor, na vizinhança, nos jornais. Pense naquelas injustiças das quais você ouve no noticiário, daquelas injustiças que influenciam milhares de pessoas, e também daquelas miúdas, tipo o seu sorvete caiu no chão e isso não é justo. Pensou? Agora pense em todas as justiças. Da justiça sendo feita nos tribunais, dos magnatas pagando por seus golpes financeiros, de você conseguindo passar naquele concurso porque é justo que passe, afinal, você estudou, e não é assim? A justiça não prevalece? A injustiça não é punida? Ou ela é, digamos, comemorada? A vida é justa? Seria justa se todo o mal fosse punido e todo bem fosse recompensado, ou se todo mal fosse perdoado (que seja), mas ainda sim, que todo bem fosse recompensado, ou que nada de mal aconteça a ninguém. Mas é assim?
         Não, estimado leitor, a vida não é justa, definitivamente. Desculpe desapontá-lo. Mas eu avisei.
         Reitero. Pessoas que merecem um emprego melhor, não vão consegui-lo, pessoas que não merecem um bom emprego estarão lá, os ricos continuarão explorando a pobreza e jamais serão punidos, e eles têm o sono tranqüilo, porque ninguém os castiga por suas maldades e crimes, nenhum deus, nenhuma roda viva, nem uma macumbinha sequer. Da mesma forma, o assassino mata o inocente, não traz a vida de volta, não paga por seus crimes, e continua vivendo. Aquela sua tia bondosa morrerá de câncer aos quarenta anos, enquanto aquele general que torturou os seus pais vai viver até os noventa e nove, dormindo em lençóis de seda egípcia, sem nenhum sofrimento. Sim, sempre há sofrimento, é certo, e também sempre há recompensa, mas ambos não estão equilibradamente distribuídos na natureza das coisas, e como não estão equilibradamente distribuídos - mais uma vez -, isso é injusto. Ou é justo? É justo o pobre honesto e trabalhador morrer de fome enquanto um rico desonesto prospera? É justo que os criminosos não paguem por seus crimes? É justo que você sofra por estes crimes?
         Não, não é justo. E onde há a justiça? A justiça prevalece? O bem vence o mal? Onde? Nas igrejas? Nos livros? Nas suas meditações transcendentais? Não há equilíbrio. Não há justiça. Porque a vida não tem sentido algum, você não tem nenhum controle, não tem poder sobre nada; a paz, a estabilidade, a inércia... é uma ilusão. Hoje você namora, amanhã terá filhos, e depois de amanhã poderá ser atropelado e estará morto. E daí? Você ainda acha que tem o controle da sua vida? Os ideais de justiça, de que no fim, bem no fim, lá mesmo, mesmo que seja após tudo nesta terra acabar, bem lá no fim dos tempos, essa idéia mesma - de que o bem vencerá o mal, de que o injusto será punido, de que o justo será compensado -, essa idéia é real, ou é uma propaganda que serve para iludir as pessoas para que o caos não reine e os defensores da justiça venham à falência?
         E como a vida é injusta, leitor, você pode esperar duas coisas dela: ou espere tudo, ou espere nada.
         Então você quer esperar tudo. Daí você pode ser muito feliz, pois tudo mesmo pode acontecer na sua vida, de bom e de mal. Você poderá ganhar na loteria, ter aquele carro que você sonha há anos, dar a melhor escola para os seus filhos, e (sem contar com os bens materiais, vamos lá), você também pode achar o amor da sua vida ao virar a esquina, pode se reconciliar com seus velhos inimigos, pode sentir uma iluminação tremenda e se tornar um guru, tudo de bom pode acontecer na sua vida. Mas aí você está sendo otimista. Eu disse que tudo pode acontecer na sua vida. Tudo. Você pode, por sua vez, perder seu emprego após quinze anos de dedicação, sua mulher pode trocá-lo pelo vizinho, seus filhos serão rebeldes, você nunca poderá encontrar o amor verdadeiro, nunca terá nada do que sempre sonhou, mas o seu vizinho sim - E talvez por isso sua mulher o trocou por ele no começo da frase. Tudo pode acontecer na sua vida, e, portanto, seja feliz esperando tudo, de bom e de mal. Ou, você tem a segunda opção: Espere nada.
         Não conte que a vida vá lhe ajudar de alguma forma, ela é matreira, e espere que as pessoas em algum momento decisivo vão certamente agir como idiotas, que elas podem nunca entender seu ponto de vista, nunca lhe darem atenção. Não espere que seus filhos irão um dia lhe compreender, que seu cônjuge vá sempre lhe respeitar, não espere nada de bom - se conseguir. Bem, de qualquer forma, você pode ser feliz dos dois jeitos, esperando tudo, ou esperando nada, e pode também ser infeliz, e sabe por quê? Bem, você já sabe, porque tudo pode acontecer, ou nada pode acontecer, pelo fato de que a vida é injusta, eu já disse.
         Aliás, se você quiser sair desse dilema e não quer esperar tudo de tudo, nem quer esperar nada de nada, aí o injusto é você! Ou você acha bonito esperar tudo só do que é bom, e não esperar nada do que é mal? Aí, me desculpe, mas você, além de injusto, está sendo otimista demais, porque para ser justiça, você deveria ampliar o seu senso para todas as pessoas e aí, meu filho, cada uma tem seu próprio senso do que é bom para si e mal para si, e no final, você verá que seu senso é a coisa mais egoísta que existe. Que injusto você é.
         Por outro lado, você acha então que esperar tudo do que é mal e nada do que é bom vai resolver seus problemas? Mais uma injustiça. De certo, é mais racional do que a anterior, mais lógica, mais prudente, mais liberal, e mais neurótica também, um pessimismo só. E também é injusta. A vida também tem das suas coisas boas. Você terá sim filhos maravilhosos, sua esposa envelhecerá ao seu lado com muita saúde, ninguém da sua família terá depressão, eles nem saberão o que quer dizer Prozac, e você superará as dificuldades com a moderação e o equilibro emocional de um Buda. E talvez até ganhe na loteria.
         Então, não precisa ser pessimista. Mas também não precisa ser otimista. Seja realista, então! O sol nasce para todos. Até mesmo para aquelas pessoas que você acha que não o merecem, aquelas mesmas, aquelas que você deseja silenciosamente que morram como um vilão da novela das oito. Pois é. Paciência.
         Seus inimigos podem se dar bem agindo errado, e você pode se dar mal agindo certo. Fazer o quê? Agir como eles? Ser injusto também? Daí ocorre o seguinte: Seria justo ser injusto? Mas, se assim fosse – em um mundo onde é justo ser injusto -, seria injusto ser justo, e se é injusto ser justo, você acaba sendo injusto de qualquer maneira. Aí você tem duas opções: ou seja logo injusto de uma vez e veja no que vai dar, ou seja justo. A questão é que de qualquer maneira você pode se dar bem ou se dar mal sendo o que for, justo ou injusto, e isso pelo fato de que a vida (lá vamos nós de novo) é injusta.
         O realismo nos leva ao sentido da vida, e o sentido da vida é: “Tanto faz!”
         Tanto faz, porque o fim é sempre o mesmo, a morte, o esquecimento, a ausência do ser, a negação da vida, o nada. Ah, mas aí já é realismo demais. Assim não dá. Cansei de especular. Chega de filosofia. Está bem, desisto. Que venha a religião!...
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 26/02/2007
Alterado em 28/02/2007


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