Vitor Pereira Jr
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A noite dos corações partidos

       Mudei-me da querida Dijon para a agitada Paris na primavera de 1898, ingressando na École des hautes études commerciales, sem me dar conta de que ingressaria também em aventuras misteriosas e inesperadas. Com uma razoável pensão de meus pais, procurei por qualquer hospedagem que me acomodasse com o mínimo de conforto e sossego pelo tempo em que estudaria Administração. Foi nessa época que conheci Corin Lamard, o qual logo descobri ser a mente mais aguçada da França. Dividimos um apartamento no número 75 da Rua Saint-Denis. Desconfio que Corin aceitara a companhia de um estudante para dividir as despesas de seu apartamento sobretudo para ter a oportunidade de conhecer mais sobre o comportamento humano – curiosamente ele ganhava a vida como detetive particular, e era requisitado pela polícia parisiense em alguns casos. Às vezes, quando eu estava mais descansado das provas do primeiro ano, Corin apresentava-me Paris, e divagava sobre a cultura que borbulhava como champanhe neste fim de século.
       – Meu novo amigo Guy Moret, em alguns anos você estará administrando as empresas de seu pai, deixando esta bela cidade para trás. Mas Paris é para ser vivida e lembrada, e não esquecida – dizia ele, com gentileza tal que em nada lembrava de sua severidade investigativa.
       Certa manhã, enquanto relembrávamos do enigmático roubo de quadros no Louvre e que Corin solucionara, semanas atrás, reparamos em um folheto que o senhorio havia deixado por debaixo da porta. Era o anúncio de uma peça de teatro que estrearia no Grand Grèce esta noite. O folheto noticiava: “A Queda de Turim, uma tragédia em três atos, do dramaturgo e diretor Paul Courtines. Produção: Troupe de Dionysos, recém-chegada da tournée de Viena. Estrelando: Philippe Agier, como Conde de Turim; Pierre Nouvat, como Conde da Lombardia; e Nicole Barteaux, como a Duquesa de Luxemburgo”. Como eu já estava enfastiado de estudar matemática, julguei que assistir a uma tragédia esta noite não seria pior do que tentar entender o Paradoxo de São Petersburgo, de Bernoulli. Então adiantamo-nos para comprar os ingressos.
       Poderíamos bem ter-nos utilizado do bonde, mas Corin apreciava os passeios a pé. Tinha o firme entendimento de que se conhecia muito mais sobre o mundo quando se caminhava sobre ele. Atravessamos a praça e chegamos à boulevard, passando a apreciar a beleza dos cartazes publicitários de Toulouse-Lautrec afixados nos postes:
       – Os parisienses têm chamando esse estilo de Art Nouveau. Percebe, Guy? Não se pode admirar Toulouse-Lautrec andando de bonde – convencia-me Corin.
       Chegando ao Grand Grèce, outros cartazes coloridos anunciavam dezenas de programações diferentes: companhias de balé vindas da Rússia, ópera e operetas italianas, atrações circenses, apresentações de mágica, peças de teatro itinerantes, e até mesmo sessões da mais nova das artes, o cinema.
       – Esta técnica nova dos irmãos Lumière não me impressiona. Ainda prefiro o incitante teatro, a glamorosa ópera... Ah, e os parques de diversão. O que espera dessas novidades de nossa Belle Époque, meu caro Corin? – comentei.
       – Também espero que um dia sua irmã tenha sucesso na carreira circense – corrigiu ele, trocando meu inocente comentário sobre nosso fim de século por uma ácida observação sobre um pensamento que eu havia de fato ocultado enquanto dialogava. Como se não fosse o bastante ter-me deixado pasmo, continuou: – Com certeza seu pai ficará orgulhoso e tudo será reconciliado – finalizou, apoiando levemente a mão em meu ombro.
       – Que diabos foi isso agora, Corin? Além de detetive você lê pensamentos também? Como chegou a saber de todos esses detalhes íntimos de minha vida se nunca falei disso para ninguém?!
       – Disse sim, Guy. Disse isso alguns segundos atrás. Embora não tenha usado palavras, quando passamos pelos cartazes do teatro, você se deteve diante do anúncio das bailarinas russas do Balé de Kirov, desfigurando seu rosto tristemente, declinando e maneando a cabeça com pesar, o que significa que você havia se recordado da escolha feita por um ente querido em seguir a arte circense, escolha esta reprovada pela família. Como você havia mencionado certa vez com orgulho que seu irmão havia servido por dois anos no norte da África, mas não mencionou outros irmãos, concluí, ao observar sua expressão diante das bailarinas, de que seu ente querido era uma irmã com o histórico que acabei de relatar e não a teria mencionado para mim antes por ser ela motivo de desonra. E logo em seguida, você ergueu sua fronte para cima e deixou seus olhos vagarem marejados a esmo por alguns segundos, o que denota um desejo latente de submissão e aprovação paterna. Além disso – prosseguiu meu misterioso amigo, voltando a caminhar tranquilamente pela boulevard como se estivesse discorrendo sobre o evento mais natural do mundo –, faz cinco dias que você recebeu uma carta remetida de Dijon, mas você ainda não a respondeu, o que faz agora todo o sentido, pois certamente foi seu pai pedindo notícias de sua irmã, mas você receia entristecê-lo.
       – Mon Dieu, Corin Lamard! Você é mesmo a mente mais aguçada da França. Tudo o que acabou de ponderar é realmente a mais assombrosa verdade – admiti com o rosto pálido, coberto de espanto. E intrigado ainda mais com a lógica do detetive, refutei, ingenuamente: – Mas como você poderia estar enganado se, ao invés de recordar de minha irmã, tivesse recordado de alguma namorada da adolescência, e ao invés de olhar a esmo pensando em meu pai, ter-me perdido em devaneios sobre o amor perdido de outrora?
       – Neste caso, meu caro estudante – explicou pacientemente meu sagaz amigo –, junto ao manear de cabeça você teria esboçado um sorriso no canto da boca, recordando-se ao mesmo tempo dos bons momentos românticos, e, ao invés de suspender a fronte servilmente, teria olhado de soslaio, em busca da saudosa presença da amada.  
       Nós dois rimos e terminamos comprando os ingressos para “A Queda de Turim”. Voltamos para casa e passamos o restante da tarde lendo. Corin lia o jornal. Eu preferi relaxar intercalando as análises de Rousseau com os romances de Victor Hugo, procurando não lançar os olhos sobre a escrivaninha a fim de evitar novos comentários sobre a temida carta de papai. Ao anoitecer, servimo-nos de croque gallois e espumante no café da esquina e, como a praça já se encontrava fechada, contornamo-la, e caminhamos tranquilamente pela arejada boulevard, eu comentando sobre a guerra franco-prussiana e os fracassos de Luís Bonaparte, e Corin, sobre as prováveis guerras por petróleo no próximo século.
       Chegamos ao Grand Grèce quando a noite já avançava. O Sena refletia a cidade mais iluminada do globo duplicando seu esplendor como um candelabro dourado e cristalino. Uma multidão aglomerava-se na entrada do teatro ansiosa pela estreia da peça “A Queda de Turim”. Enquanto aguardávamos na fila, uma viatura policial virou a esquina e parou em frente ao teatro. Dois policiais desceram do carro prontamente e ficaram a procurar por alguém em meio à multidão. Ao olharem para nós, aproximaram-se:
       – Detetive Lamard – disse um deles, quase sussurrando –, o inspetor Harcourt deseja vê-lo imediatamente. Ele solicita seu auxílio em um caso recente.
       – Algo que requeira urgência? – respondeu Corin. – Meu amigo e eu pretendemos apreciar as belas artes esta noite... De preferência, daqui a cinco minutos.
       – Precisamente, Sr. Lamard. É este o assunto – sussurrou o outro policial, procurando não causar alarde na multidão ali presente, continuando: – Receio que as atividades artísticas desta noite estão canceladas. O diretor da peça em cartaz, Paul Courtines, e seu ator principal, Philippe Agier, foram encontrados mortos.
       Em virtude do presente revés, entramos na viatura imediatamente, antes mesmo que eu tivesse tempo para refletir que era a primeira vez que eu veria um cadáver humano.
       Fomos conduzidos a dois quarteirões dali, parando em frente a um casarão de dois andares, já cercado pela polícia, e alguns curiosos. Descemos da viatura e fomos até a entrada principal. Passamos por uma jovem dama que atraía a atenção por sua beleza e pelos trajes medievais – talvez fosse uma das atrizes da peça convocadas a comparecer ao local. No hall de entrada, os policiais apresentaram-nos a uma senhora de semblante tão abatido quanto horrorizado:
       – Com licença, Sra. Dubois. Apresento-lhe o detetive particular Corin Lamard e seu colega, o estudante Guy Moret.
       A senhora apenas acenou lentamente com a cabeça. Os policiais continuaram com as apresentações:
       – Perdoem-na, senhores. Os acontecimentos recentes a abalaram. A Sra. Dubois é a proprietária e senhoria desta pensão, e o falecido Sr. Paul Courtines era um de seus inquilinos. Acompanhem-nos, pois, até o quarto dele, onde se encontram os corpos.
       Despedimo-nos temporariamente da senhoria com um leve aceno condolente e prosseguimos com os policiais.
       O referido quarto, que ficava no segundo andar do casarão, era composto por um único grande cômodo. Algumas peças de roupas espalhavam-se confusamente por todo o lugar. Próximo à parede sul ficava a cama, um pequeno guarda-roupa, um baú aberto – que continha variadas peças de figurino amontoadas – e uma penteadeira. Figuras de deuses orientais pintados em pequenos kakemonos de seda e exóticos amuletos tribais pendiam-se no biombo que dividia rusticamente a visão da cama para o resto do cômodo. As duas janelas davam para o leste e estavam fechadas com trinco. Próximo às janelas estava uma mesa de centro, onde repousava uma garrafa quase vazia de um líquido esmeralda – absinto –, e duas taças consumidas. Ao lado das taças, sobras de rapé misturado com um pó branco, que depois entendi ser a famigerada cocaína. Quando chegamos, o gramofone – uma das posses do dramaturgo, juntamente com o baú e o biombo – ainda estava tocando, encostado na parede, próximo à porta. Ao chão, um pouco distantes da mesa de centro, jaziam esparramados dois corpos sem vida.
       Paul Courtines, o dramaturgo e diretor da Troupe de Dionysos, jazia com a cabeça voltada para o sul. Em sua mão direita, um revólver. Próximo a ele um pequeno caderno de bolso, onde rascunhava seus poemas e suas peças. Philippe Agier, o ator principal da peça “A Queda de Turim”, dispunha-se de forma diametralmente oposta, caído com a cabeça para o norte, também empunhando um revólver em sua mão direita. Do bolso interno de seu paletó pendia uma carteira de couro. Parecia estarem os dois dormindo não fossem as camisas horrendamente alagadas do viscoso e rubro sangue que escoara dos corações baleados.
       – Ao que tudo indica – ressoou a inconfundível voz grossa do velho inspetor Harcourt, coçando a cabeça grisalha e cumprimentando Corin –, os dois viciados aqui travaram um duelo fracassado e acabaram ambos mortos. Absinto e cocaína não combinam com revólveres... – bufou o inspetor –. As novidades deste fim de século! É o anúncio do fim dos tempos, acredite! – desabafou o longevo agente da lei, fazendo uma pausa e retomando o relato: – Os primeiros a chegar foram dois hóspedes e a dona da pensão. Forçaram a porta, mas esta estava trancada por dentro; tiveram que arrombá-la para então chegarem a esta cena que todos estamos vendo aqui. Como as duas janelas do quarto também estavam fechadas com trincos, é evidente que somente os dois artistas se encontravam no quarto. A própria dona da pensão afirma que viu Paul e Philippe adentrando juntos ao casarão faz algumas horas. Além disso, nossos investigadores peritos presentes aqui constataram que os revólveres pertenciam aos respectivos donos há mais de um ano e há fragmentos de pólvora na mão dos falecidos, o que confirma terem sido eles mesmos os autores dos disparos; os ferimentos também combinam com a estatura de disparo de cada um deles e com a posição em que se encontram.
       – Um duelo deveras extravagante! – exclamou o detetive, enquanto rondava o quarto e folheava o caderno de bolso do dramaturgo –. E suponho que os motivos entendidos pela polícia para tal duelo estejam ligados à disputa pelo amor da sedutora jovem lá fora, uma atriz, estou certo? Ou quem sabe estejam ligados à disputa por uma quantia considerável de dinheiro adquirida recentemente por herança? Ou quiçá os dois motivos acumulem-se. N'est-ce pas?
       – Impressionante, detetive Corin! – exclamou o inspetor, mas não tão surpreso quanto eu, que apenas observava o desenrolar dos homens da lei a certa distância –. O senhor é muitíssimo bem informado. De fato, é sabido no meio artístico, e em outros círculos sociais, que tanto Phlilippe quanto Paul mantinham um caso esporádico com a conhecida e também atriz Nicole Barteaux, a jovem lá fora, de beleza arrebatadora como bem notou, mas de humor transtornado e pouco sociável. Ambiciosa, sempre galgou interpretar os papeis de maior destaque no teatro, ainda que de talento mediano, e mesmo que para tal objetivo se utilizasse de seu charme, se é que me entende. A Srta. Nicole também tem a indescritível fama de acumular amantes no meio artístico, o que lhe rendeu em troca certos papeis de destaque em algumas peças pelo país. Os romances mais recentes da controversa atriz foram os enlaces casuais com os dois amigos caídos aqui, o que os teria levado a exaltadas discussões ciumentas, segundo confirmam todos os demais atores da Troupe, inclusive a própria Srta. Nicole. Além disso, como o senhor bem demonstrou ter-se recordado, foi noticiado há algumas semanas na Gazeta Parisiense que o Sr. Philippe Argier herdara o valor de três mil francos de um parente distante, falecido ministro do Segundo Império. A considerável quantia foi retirada do banco faz quatro dias pelo próprio Philippe. Portanto, detetive, acho bastante plausível que esses dois atores aqui, com a razão minguada pelo absinto e as emoções à flor da pele devido aos calores das paixões proibidas, e, influenciados pela mesma temática da peça em cartaz “A Queda de Turim”, isto é, um duelo entre dois condes pela disputa da amada, terminaram por travar impulsivamente um duelo de fato em defesa da mesma amante. O vencedor poderia ocultar o corpo do vencido no baú abarrotado, que seria levando de carruagem até o Grand Grèce sob o pretexto de se estar transportando trajes para o figurino, para então fugir para algum país longínquo; contudo, amargaram inacreditavelmente um duelo sem vencedores, neste caso.
       – Neste caso – corrigiu Corin –, ainda estamos observando os fatos através de um buraco de fechadura. Todas essas informações realmente conduzem para a hipótese de um duelo malogrado, inspetor. Mas e os três mil francos?
       – Receio que ainda não foram encontrados, detetive. Até agora não vimos nem sinal do dinheiro, embora meus homens tenham revistado todos os hóspedes bem como todos os atores da Troupe, e estejam revistando todos os cômodos da pensão. As únicas posses encontradas na carteira do Sr. Philippe é o recibo do banco e três moedas antigas, sem valor algum. Da mesma sorte, o único objeto que encontramos com Paul foi esse caderno.
       – Assim como o dramaturgo deixou seu caderno de ensaios incompleto, com páginas em branco e folhas arrancadas, temos aqui um quadro inacabado. Agora precisamos visualizar toda a paisagem. Se me permite, posso conhecer as testemunhas e examinar o casarão em seguida? – cogitou Corin, reacomodando o caderno de poesias no bolso do finado dramaturgo.
       O inspetor acenou positivamente, e Corin saiu para o corredor avançando com as investigações.
       A Sra. Dubois era uma idosa com mais de setenta anos de idade e herdara o casarão de seu falecido pai, adaptando o prédio para servir de pensão, que é sua única fonte de renda. Moradora do quarto mais próximo à entrada, no térreo, relatou ter sido acordada ao som do que parecia ter sido um estouro de bomba. Não tem certeza se foi disparo de revólver. Lembrou de ter olhado para a rua pela janela de seu quarto, mas não viu ninguém nem notou nada de excepcional. Após um tempo, resolveu averiguar o ocorrido e saiu do quarto, e logo viu um de seus hóspedes, Henri Fayat, também morador do térreo, subindo as escadas. Como estava assustada, pediu que Henri voltasse para ajudá-la a sondar o casarão. A Sra. Dubois verificou de início a porta de entrada e certificou-se de que estava trancada. Ao ser perguntada sobre quem tem a posse da chave da porta de entrada, respondeu que todos os inquilinos possuem uma cópia, mas que após às nove horas da noite, ela passa um ferrolho de ferro, o que inibe que inquilinos entrem na pensão sem a autorização da senhora. Ela relatou ter boas relações com todos os seus hóspedes, exceto pelo próprio dramaturgo falecido e seu estilo de vida desvairado, como ela mesma diz, e um jovem chamado Jean Barot, que vive em dívidas e parece pouco confiável.
       Henri Fayat, um azulejista, é o morador do quarto abaixo ao do dramaturgo, e relatou estar preparando-se para dormir quando ouviu dois tiros seguidos e o baque surdo do que parecia pessoas caindo ao chão. Saiu de seu quarto e foi visto pela Sra. Dubois enquanto subia as escadas. A Sra. Dubois pediu que Henri esperasse para acompanhá-la. Quando ambos chegaram ao segundo andar, o Sr. Meinhard já estava batendo à porta do quarto de Courtines insistentemente, sem resposta. A pedido da Sra. Dubois, foi Henri que arrombou a porta.
       O Sr. Meinhard é um militar aposentado, e o hóspede mais antigo da pensão. Seu quarto fica no mesmo andar do quarto do dramaturgo, logo acima do quarto da Sra. Dubois. Relatou que as noites no quarto de Paul Courtines eram costumeiramente despudoradas. Mesmo sabendo da norma de não trazer visitantes, disse que Paul trazia alguns artistas para ensaiar algumas peças. Por duas vezes viu a Srta. Nicole entrando no quarto em companhia do dramaturgo. Relatou que uma vez bateu à porta de Paul devido a uma discussão acalorada que ele travava com um ator, que depois reconheceu ter sido Philippe. Quanto ao recente acontecimento, o Sr. Meinhard disse ter aberto a janela de seu quarto para tomar ar fresco e ter colocado tampões nos ouvidos para tentar inibir o som do gramofone, o qual odiava. Após um tempo, disse ter escutado o som do que lhe pareceu ter sido dois tiros disparados quase ao mesmo tempo. Julgou ter sido no andar térreo, então olhou primeiro para a entrada da pensão, pela janela, e viu apenas uma carruagem dirigindo-se para leste, duas ruas ao norte. Permaneceu em seu quarto, mas ao ouvir o som da porta do quarto da Sra. Dubois sendo destrancada, temeu pelo pior e saiu para o corredor. Antes de pensar em descer as escadas para ver a senhoria, bateu à porta do dramaturgo a fim de perguntar sobre os sons misteriosos. O Sr. Meinhard disse não ter escutado nenhum outro som vindo do quarto que não tenha sido o da música tocada no gramofone. Quando a Sra. Dubois e o Sr. Henri chegaram ao segundo andar, também bateram à porta, sem resposta, até que, exaltada, a Sra. Dubois perguntou se Henri poderia arrombar a porta, o que foi feito.
       Jean Barot é o terceiro morador do segundo andar, no quarto próximo às escadas. Tem cerca de vinte anos e trabalha como auxiliar de impressão no jornal da cidade. É poeta, já foi detido por incitação ao comunismo, e recentemente tentava negociar sem sucesso alguns textos com o dramaturgo, segundo contam alguns atores da Troupe. Vivia endividado e com dois meses de aluguel atrasados, segundo a Sra. Dubois. Não foi visto em seu quarto no momento das mortes, só aparecendo à entrada da pensão meia hora depois, um pouco embriagado.
       Como os demais hóspedes estavam nas imediações do teatro para assistir à peça no momento do crime, foram descartados como principais suspeitos. Ao serem ouvidos, confirmaram as frequentes visitas da atriz Nicole ao quarto de Paul, e os eventuais saraus que Paul promovia a alguns artistas mais íntimos, especialmente a Philippe, com quem compartilhava o gosto por absinto e por rapé misturado com cocaína.
       Além dos moradores do casarão, ouvimos o Sr. Calvet, cocheiro da estação de carruagens do Centro, que disse ter ouvido o som de um estouro ecoando da pensão da Sra. Dubois enquanto deixava um casal em sua casa. Quando o Sr. Calvet chegou nas proximidades, viu uma jovem, que depois reconheceu sendo a Srta. Nicole, rondando o casarão pelo lado sul.
       Evidentemente, as principais suspeitas de envolvimento com a morte dos artistas recaíram sobre a própria Srta. Nicole. De olhar sensual e trejeitos de candidata ao Moulin Rouge, a jovem tinha uma voz suave e confiante. Negou veementemente qualquer participação na morte dos amantes. Ao contrário, proferiu-nos uma versão chocante:
       – Suicídio, detetive! Foi isso mesmo o que o senhor ouviu. Suicídio. Eu, mais do que qualquer um, como bem devem ter levianamente ouvido, estou sendo sincera quando o digo. Fui amante dos dois, sim, e não nego. Nós, artistas, somos amantes do belo, do prazer, do arrebatamento. Mais do que qualquer um, fui eu que ouvi, como a mais fiel confidente, noite após noite, poema após poema, os lamentos dos corações entristecidos de meus queridos amantes. Ó, aqueles revólveres! Malditas invenções modernas! Era esse o intento dos revólveres, tirar a própria vida. Por duas vezes vi Paul e Philippe pressionando os canos nas têmporas e desistindo em seguida, às lágrimas. Quando eles se atrasaram para a peça de teatro hoje, percebi que eles finalmente haviam consumado o trágico destino. Por isso eu vim até aqui, para tentar impedir a tragédia.
       – Srta. Nicole, seus amigos Paul e Philippe cometeram mesmo suicídio ou foram assassinados? – perguntou Corin, de súbito. No mesmo instante, o semblante da atriz transfigurou-se da doçura complacente para a colérica revolta.
       – Francamente, detetive! O que está insinuando? Que eu os matei?! Esperaria tal comportamento da polícia e da imprensa; mas não dos senhores! – Nicole travou seu olhar congelante sobre mim também. Mas Corin não se abateu diante da performance da atriz, e permaneceu sereno, mesmo com as emoções da jovem transbordando em sua voz tremulante: – Eu os amava! Amava como amava minha vida! O senhor está tão inebriado com os boatos sobre mim que ficou cego quanto qualquer outro crítico de arte! – gritava.
       Os policiais que cercavam o local aproximaram-se para intervir, mas Corin acenou que não era preciso.
       – Srta. Nicole, a senhorita poderia emprestar-me seu grampo de cabelo? – surpreendeu Corin novamente. Tal pergunta inesperada e singular, para mim com certeza, mas certamente não para o detetive, fez com que o rosto da atriz, de rubro pela raiva, tornasse branco como o gelo. – Este grampo de cabelo aí mesmo, preso em seu coque, poderia emprestar-me por alguns minutos? – repetiu o detetive. A atriz hesitou e fosse como se ela assumisse com os olhos arregalados toda a culpa pelo crime. Eu não entendia nada, mas sabia que tanto o detetive quanto a atriz compreendiam perfeitamente do que se tratava. Por fim, Nicole empinou o nariz e cedeu um de seus grampos de cabelo.
       – Acompanhe-me, Guy. Quero comprovar uma teoria – e fui com ele. Mais um policial acompanhava-nos. Depois outro policial insistiu que Nicole deveria ir também. O detetive apontou para as duas janelas trancadas do quarto do falecido dramaturgo.
       – Veja, Guy – dizia, enquanto apontava para a estrutura do prédio –, este velho casarão certamente passou por diversas reformas e adaptações ao longo dos anos. Note que as calhas não são originais. Por puro sentimentalismo, a Sra. Dubois deve ter pedido que a tubulação que escoa a água da chuva fosse fixada por fora das paredes. Note como a tubulação é próxima às janelas, e fixada por vários degraus de concreto o que facilita bastante que qualquer pessoa com o mínimo de força de vontade possa por este encanamento tanto subir quanto descer.
       No mesmo instante, o detetive escalou a tubulação de ferro sem a menor dificuldade, chegando ao nível das janelas do quarto do dramaturgo. Retirou o grampo de cabelo do bolso, e, após algumas tentativas infrutíferas, conseguiu destravar o trinco pelo lado de fora, abrindo a janela em seguida.
       – Essas janelas antigas sofrem de uma estrutura convenientemente frouxa, não concorda, Guy? – gritou Corin, diante de um público estarrecido. Então entrou no quarto pela janela, diante dos surpresos policiais, que no cômodo ainda se encontravam.
       – Inspetor Harcourt – prosseguiu Corin –, está o senhor admirado por eu ter logrado façanha tão engenhosa ou por estar imaginando neste instante que eu cobri as impressões digitais que a Srta. Nicole deixara na tubulação de ferro? Garanto que tomei cuidado para que os peritos identifiquem impressões suficientes. Agora, se me permite, o senhor inspetor poderia solicitar ao seu perito que também identificasse resíduos de pólvora naquela luva de cor castanha ali, facilmente confundida com o restante dos trapos velhos amontoados naquele baú? Aguardo o resultado enquanto percorro com a mesma facilidade o caminho de volta, sim?
       Portentosamente, o detetive saiu do quarto pela mesma janela, equilibrando-se na tubulação do lado de fora. Com mais algumas tentativas, conseguiu finalmente puxar a janela de volta até o batente, utilizando-se do grampo novamente, desta vez para afixar o trinco, embora com maior dificuldade. Em seguida, desceu até a calçada com algum esforço. Estava ofegando.
       – Confesso que esta tarefa exigiu de mim empenho físico superior ao que eu imaginava, porém em mais um ou dois treinos, executaria a mesma ação na metade do tempo. Não concorda, Srta. Nicole? – finalizou o empenhado detetive, entregando o grampo a um dos policiais.
       – Eu adentrava ao quarto de Paul por esta tubulação, sim, não negarei, mas o fazia para evitar os olhares inquisidores da dona da pensão. A Sra. Dubois me odiava, me julgava uma meretriz! – gritava a jovem, gesticulando nervosamente para todos os presentes –. Mas eu jamais entrei no quarto de Paul sem o consentimento dele. Era ele que abria a janela para mim. Sempre para mim! Porque ele me amava! Eu nunca precisei arrombar a janela com este seu método ridículo! O senhor insiste em ultrajar-me! – defendeu-se a jovem, exasperada.
        – Eu sinto muito se fui rude, Srta. Nicole. Sou culpado por possuir ares arrogantes. Mas não me julgue um ingênuo. Não fui assaz tolo para solicitar que me entregasse precisamente o grampo que a senhorita utilizou para chegar até o quarto do Sr. Paul. Utilizei justamente um grampo novo apenas para que a perícia fizesse a devida comparação de uso com este outro grampo aí ainda preso, este mesmo que a senhorita se negou a dar-me, mas que o policial terá a bondade de retirar e levar consigo – arremeteu Corin diante da jovem agora sem palavras.
       – Acompanhem a Srta. Nicole até a delegacia, homens! – vociferou o inspetor Harcourt, que deixara o casarão e chegava até nós, quebrando o silêncio. – Sua intuição foi assertiva mais uma vez, Sr. Corin. Há vestígios recentes de pólvora na luva identificada.
       A jovem atriz Nicole Barteaux foi detida e levada para a delegacia de polícia de Paris para que prestasse novos depoimentos.
       – Suspeitava da atriz desde o início, detetive, se me permite dizer – comentei, procurando o olhar aprovador de Corin, mas o que recebi foi seu olhar cortante:
       – Considera o caso resolvido, Guy? Repare, os policiais ainda estão à procura do dinheiro desaparecido. Eu suspeito, portanto, que a solução para este mistério não esteja além das paredes deste velho casarão. São nossos policiais que carecem de imaginação. Ou melhor dizendo, carecem de percepção artística.
       – Percepção artística?! – repeti.
       – É exatamente disso que se trata. Receio que a morte dos artistas tenha tudo a ver com eles mesmos. Estamos diante de uma peça teatral. Venha, Guy, adentremos ao casarão novamente e você verá que os policiais não revistaram todos os cômodos adequadamente.
       Meia hora depois, policiais nos conduziam à delegacia. Entramos na sala do inspetor Harcourt, que interrompeu a leitura que fazia do depoimento da Srta. Nicole ao ver, espantado, que Corin depositava em cima de sua mesa a quantia de três mil francos.
       – Devo concluir que, com sua presença à delegacia, o caso foi solucionado, e que o senhor, detetive, veio prestar seu depoimento.
       – Seguramente, inspetor. Mas permita-me discorrer sobre o caso desde o início.
       – Prossiga, Lamard, estou ansioso para saber como tudo aconteceu.
       – Desde o começo de minhas investigações – iniciou Corin –, percebi que algo não se encaixava. A hipótese original do duelo seria perfeitamente plausível, mas somente se considerarmos que tal ato foi impulsivo, pois, do contrário, se o duelo houvesse sido planejado, seria inviável tal confronto barulhento ter-se dado em uma pensão, mesmo abafado pela música do gramofone, e às vésperas de um evento onde ambos os artistas eram aguardados a comparecer. Imaginem a dificuldade para o vencedor do duelo em ocultar o cadáver do vencido no baú sem deixar vestígios, conduzir o baú até o teatro mesmo que por carruagem, ocultar o corpo, fugir para um país distante, sabendo que um dia terminaria sendo capturado. Além disso, ambos os atores eram pacíficos e deveras supersticiosos diante das consequências pós-morte de se cometer um assassinato, freados pelo pavor de serem levados a algum inferno no além, ou de vagarem errantes como almas penadas, como atestam os variados amuletos religiosos que possuíam.
       – Descartamos a hipótese inicial de um duelo deliberado após as novas evidências recaindo sobre a Srta. Nicole, obtidas pelo senhor, Sr. Corin.
       – Precisamente. A hipótese de assassinato por autoria da Srta. Nicole, escalando o tubo de escoamento pluvial e entrando pela janela, efetuando os disparos e saindo pelo mesmo local, utilizando-se de seu grampo de cabelo para descer o trinco pelo lado de fora, pareceu uma hipótese mais razoável que a do duelo, ainda mais comprovando-se a presença de Nicole no local, e da luva que ela teria julgado ocultar em meio à confusão de peças de roupa; contudo o assassinato em si somente seria praticável se considerarmos que Paul e Philippe estivessem debilitados pela excêntrica mistura de absinto com cocaína, a fim de que as duas vítimas não esboçassem resistência alguma enquanto Nicole se apoderasse primeiramente de suas armas pessoais e depois ainda efetuasse tranquilamente os disparos tão precisos.
       – E não foi assim que os fatos procederam? – asseverava o sisudo inspetor.
       – Cogitei apenas por um instante que sim, pois, como disse, alguns elementos não se encaixavam: a disposição dos corpos, a precisão dos disparos, o sumiço do dinheiro, e até mesmo o próprio local das mortes. Diante disso, minha insistência impulsionou-me a progredir, e agora estou certo de que a Srta. Nicole, apesar de toda a má fama e imoderação e apesar de ter estado no quarto, não foi a autora das mortes.
       – Sr. Corin Lamard! – perturbou-se o inspetor, apertando os olhos –. O senhor está insinuando que sua investigação induziu a polícia de Paris ao erro?! A Srta. Nicole estava ou não estava no quarto de Paul no momento das mortes?! – irrompeu o velho inspetor, agora erguendo-se de sua cadeira.
       – Compreendo perfeitamente sua indignação, respeitável inspetor. Mas o senhor também deve admitir que tais provas meramente circunstanciais não levariam Nicole Barteaux à mais branda condenação. A pressa em deter a atriz não foi minha. O que provei foi que a Srta. Nicole esteve dentro do quarto, constatado pelas recentes impressões digitais na tubulação e no uso do grampo de cabelo para destrancar a janela, mas tudo isso ocorreu após as mortes, nem antes e nem durante. Eu explico. A impulsiva Srta. Nicole de fato estava certa em pressentir a morte de seus amantes casuais, sentimento explicitado pelas confissões suicidas de Paul e Philippe; pelas tentativas anteriores de uso das armas de fogo por seus donos; pela recente posse das moedas antigas que o senhor julgou erroneamente sem valor na carteira do ator, uma vez que eram óbolos, usadas pelos antigos para o pagamento da travessia ao mundo dos mortos, mais uma das variadas superstições dos artistas; e pelos recentes poemas melancólicos inacabados de Paul escritos em seu caderno. Por isso, venho dar minha contribuição à polícia esclarecendo que a Srta. Nicole de fato esteve ao quarto de Paul, mas chegara tarde demais. Quando a jovem atriz viu aterrorizada os corpos sem vida de seus amantes, concluiu sabiamente que a culpa recairia sobre si, tratando de voltar ao teatro o quanto antes, mas foi vista pelo cocheiro nas proximidades do casarão. Interrogada, teve o medo perfeitamente justificável de ser incriminada e difamada ainda mais e por isso mentiu sobre as visitas fortuitas ao quarto de Paul. Se ela é culpada de algo, é tão somente de não ter cooperado com as investigações.
       – Detetive Lamard – admitia o inspetor, agora contornando a mesa e investindo gradualmente contra Corin –, o senhor tem uma perspicácia invejável. Acabamos de colher o depoimento da Srta. Nicole e foi exatamente esta a versão narrada pela jovem. Mas se o que ela relatou e o senhor concluiu mesmo sem interrogá-la é verdade, quem planejou os assassinatos?
       – Não pretende sentar-se, Harcourt? Eu insisto. Sente-se. Mantenha a calma que tudo será devidamente explicado – abrandou Corin.
       – Prossiga, detetive.
       – Quem planejou as mortes de Paul Courtines e Philippe Agier foram as próprias vítimas, Paul Courtines e Philippe Agier! – respondeu Corin tranquilamente.
       – Então os dois travaram um duelo malfadado, afinal! Mas não foi essa a hipótese rejeitada no início de seu raciocínio?
       – De fato. E reafirmo. Não consideraria efetivamente um duelo.
       – Um suicídio coletivo, por certo?
       – Pela disposição dos corpos, tal feito seria impossível.
       O inspetor Harcourt já coçava a cabeça e voltava a demonstrar sua impaciência.
       – Detetive, se bem ouvi, o senhor afirmou que a Srta. Nicole não matou Paul e Philippe. Em seguida, o senhor disse que as próprias vítimas planejaram suas mortes. E também afirma que não houve a execução de um duelo e tampouco de um suicídio coletivo. O que houve, afinal, posso saber?
       – Perfeitamente, inspetor. Explico. Paul e Philippe foram vítimas de seus próprios destinos. Uma amizade fatal, eu diria. Sincera, mas fatal. Após Paul e Philippe terem se conhecido em alguma apresentação artística itinerante pelo nosso belo país, tornaram-se amigos de estrada e aos poucos confidenciaram tragicamente um ao outro os mútuos impulsos suicidas. Durante as conversas regadas de absinto e rapé adulterado, teria surgido a ideia de praticarem um suicídio conjunto. Mas como poderiam eles dar cabo da vida um do outro se vacilavam diante da ideia de romper a própria vida em si? A solução dramática para o dilema seria contratar, com o dinheiro da herança de Philippe, alguém que executasse o maldito feito. Sondaram alguns candidatos, até lograrem convencer o pobre, porém destemido, Henri Fayat.
       – O azulejista? Mas por quê?
       – Paul e Philippe intuíram, e não sem razão, que caso a polícia suspeitasse de que, ao invés de um duelo, os dois tivessem sido mortos por uma terceira pessoa, as suspeitas recairiam sobre seus colegas da Troupe, e foi seguindo esta lógica que procuraram por candidatos insuspeitos, sem motivação aparente. Henri foi persuadido pelas técnicas teatrais dramáticas de Paul e Philippe, que o convenceram a tornar-se um anti-herói de uma trama trágica: os amigos atores iriam simular um duelo, à imitação da “Queda de Turim”, peça que o próprio Paul teria escrito antes já com o propósito premeditado de criar um álibi, e garantiriam ainda que Henri jamais seria incriminado. Diante da tentadora oferta de três mil francos, Henri concordou em executar o plano orquestrado pelas próprias vítimas. No dia anterior aos fatos, Paul e Philippe teriam combinado um encontro com Henri em algum bosque próximo e, encobertos pela mata, ensinaram Henri a manipular os revólveres, tendo Paul e Philippe efetuado disparos em alguma árvore, sendo daí os vestígios recentes de pólvora em suas mãos, tudo previamente calculado para que a autoria dos disparos recaísse sobre as próprias vítimas. Na noite combinada, após ter recebido o dinheiro de Philippe, Henri aguardaria em seu quarto o sinal para agir: a música tocada pelo gramofone. Então saiu de seu quarto fortuitamente e entrou como convidado no quarto de Paul, onde este e Philippe o aguardavam ansiosamente. O destemido inquilino vestiu as luvas subtraídas de algum figurino antigo do teatro, empunhou decididamente os revólveres e, erguendo os braços de forma calculada, disparou as duas armas ao mesmo tempo, mirando o coração de Paul e Philippe. Sabendo que dispunha de poucos segundos, Henri seguiu o roteiro do dramaturgo à risca, e ajeitou cuidadosamente cada revólver na mão desfalecida de seu respectivo dono para simular um duelo; apinhou cuidadosamente as luvas em meio às roupas amontoadas no baú; e saiu do quarto, trancando-o por fora com a chave particular de Paul. Quando estava descendo as escadas ouviu o movimento da Sra. Dubois e assim simulou estar subindo as escadas, agindo como se estivesse igualmente surpreso. Quando Henri acompanhou a Sra. Dubois até a porta do quarto de Paul, diante da qual o Sr. Meinhard já havia se dirigido, aproveitou do nervosismo da senhoria para que ela aceitasse a decisão de arrombar a porta. Após Henri ter arrombado a porta, retirou a chave do quarto de Paul que havia guardado no bolso do pijama e a repousou comodamente em cima do gramofone, para que todos pensassem que o quarto havia sido trancado por dentro, encerrando assim a encenação da última peça dos artistas suicidas.
       – Très bien, Sr. Corin, e como foi que o senhor chegou ao autor dos disparos e ainda recuperou o dinheiro? O azulejista confessou? – inquiriu Harcourt.
       – Confessou, mas somente após o dinheiro ter sido descoberto com ele.
       – Mas como? Asseguro que meus policiais o revistaram e revistaram seu quarto.
       – Revistaram, mas não apropriadamente. O dinheiro estava devidamente escondido aos olhos de todos da melhor forma possível: exposto à vista de todos. Explico. Seus policiais revistaram os moradores do casarão, bem como suas posses e seus cômodos, mas creio que ao verem as inocentes ferramentas de azulejista de Henri, não se deram ao trabalho de a revistarem também. Afinal, o que esconderia um inocente martelo de pedreiro ou um rude malhete deixados deliberadamente aos olhos de todos em cima de uma mesa? Portanto, fugi do que era comum e tratei de desatarraxar as cabeças do martelo e do malhete, descobrindo que cada cabo fora devidamente perfurado. No cabo do martelo estava escondido, enrolado como o mais fino pergaminho, o dinheiro, do qual Henri poderia fazer uso aos poucos, a qualquer momento e em qualquer lugar, sem despertar suspeitas das autoridades. E no cabo no malhete estava escondida esta folha de papel – disse Corin, entregando a folha ao inspetor.
       – O que é isso? Um dos poemas do dramaturgo arrancado do caderno?
       – É uma folha arrancada do caderno sim, mas, se tiver o cuidado de ler, é uma carta de suicídio, assinada por Paul e Philippe, que também atenderam ao último pedido de Henri Fayat. Nosso desafortunado azulejista sabia que poderia ser detido como suspeito no futuro e então pediu para que Paul e Philippe redigissem uma confissão que pudesse ficar escondida com Henri, assim como o dinheiro, e que pudesse ser apresentada como prova de inocência, ou atenuante, quando necessário. Portanto, como atesta a carta, Paul e Philippe não só despedem-se deste mundo como rogam pela inocência de Henri, ao mesmo tempo vítima e algoz do roteiro dos suicidas.
       – Sacrebleu! – exclamou o inspetor, alceando as grossas sobrancelhas –. Esses atores são um bocado esquisitos! Pensaram em tudo!
       – Só não pensaram que o caso seria solucionado tão cedo – finalizou Corin, acenando para Harcourt e dirigindo-se para a porta. O inspetor ainda perguntou:
       – E o azulejista? Meus policiais o trouxeram, não trouxeram?
       – Sim, trouxeram, mas ele ainda está na viatura, lá fora, pranteando sua própria tragédia no mais amargo dos remorsos.


       O inspetor teve a bondade de solicitar que uma viatura nos levasse de volta ao número 75 da Rua Saint-Denis. Após eu ter aquecido e servido leite com chocolate e canela, Corin e eu conversamos em meio aos canecos fumegantes:
       – Curioso este caso, não foi mesmo, Guy? No final das contas, Paul e Philippe travaram mesmo um malogrado duelo de corações partidos. Mas não um duelo entre si, foi um duelo com a vida. Porém, sem coragem de puxar o gatilho, pactuaram com a morte por meio de um embaixador.
       – Mas uma coisa eu não compreendi, Corin. Se o dramaturgo e o ator queriam morrer, por que não recorreram à simplicidade ao invés de optarem pelo caminho mais incomum e complexo? – comentei.
       – Ora, Sr. Guy Moret, esqueceu-se de que esses tipos excêntricos são artistas habituados à plateia? Que mais poderiam eles querer além de um fim dramático e serem lembrados após as cortinas se fecharem sobre eles? Certo como os que se foram nada nos contarão, só nos resta conhecê-los através da marca que deixaram no mundo – então Corin parou por um instante, soprando sobre o leite quente, como se tentasse recordar-se de algo, então falou: – Lembrei agora do último poema, escrito no caderno do dramaturgo, bastante triste e revelador: "O último gole já esquecido, /A noite chuvosa, a terra arrasada, /A casa vazia, e a lenha queimada, /Sangram a dor de um coração partido". Não é curioso? – perguntou aos ventos, fazendo uma pausa –. Nosso legado – continuou –. Apresentamo-nos aos outros durante toda nossa vida, mas o legado que fica é o que os outros dirão a nosso respeito depois que morrermos. É de fato muito curioso. E agora, se me dá licença, amigo, retiro-me para o meu quarto. Acordarei amanhã bem cedo e sairei, para sentir os frescos ares do bosque público, já que você precisará ficar sozinho a fim de poder finalmente responder a carta ao seu pai. Vemo-nos no bistrô próximo à estação de carruagens, quando terminar, para nosso desjejum. Gostaria de provar das novidades desse tal de chá – e retirou-se para o quarto.
       Atônito e ao mesmo tempo resignado, entranhei-me em minha poltrona por alguns instantes, olhando para a escrivaninha e refleti como, mais uma vez, Corin Malard estava surpreendentemente certo sobre tudo.
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 16/07/2014
Alterado em 22/07/2014
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