Vitor Pereira Jr
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Hagia Sophia *
     No coração de Cecília crepitava escondida a centelha residual de uma chama que um dia havia aquecido um mundo inteiro. E o que aquecia agora era a visão dolorosa – risonhamente dolorosa – do caneco de barro que repousava em meio aos livros de poesia e a fotos de família. Era saudade – saudade – uma persistente saudade que somente as mulheres suportavam transportar dentro de si. Mas dentro de Cecília o que não cabia – quando fitou, através das portas envidraçadas da sala, as orquídeas que conversavam no jardim –, era a visão fantasmagórica que atravessava saltitante o delicado quintal. Era decididamente uma erva daninha atrevida e inesperada – com suas tranças negras e uma mochila a tiracolo coberta de buttons – batendo à porta. “Bom dia, vovó!”, cumprimentou a juvenil erva daninha.
     – Bom dia! – insistiu a menina, encarando com um sorriso cínico. Se ao menos...
     Cecília foi abrindo vagarosamente a porta – atônita, em silêncio, quase não respirava – tal qual abrisse a jaula de algum animal feroz. Temia as garras, os dentes, algum bote. Como Cecília não se movia, a neta deu um passo para frente, e, para o desafogo da avó, a abraçou.
     – Oi, querida, há quanto tempo! – suspirou Cecília, afagando timidamente seus cabelos. Há alguns anos que Cecília não via a neta. Sofia devia estar agora com seus treze ou catorze anos. Da última vez rm que a filha apareceu com a neta, veio mais para pedir dinheiro do que para visitar a mãe. Cecília e a filha só se falavam quando era extremamente necessário. Maitê...
     – Onde está sua mãe? Não veio com você? – lembrou-se de perguntar.
     – Mamãe ficou em casa. Brigamos. Eu queria ver meu pai, que agora mora em Ilhéus. E eu nunca tinha ido à Bahia. Mamãe proibiu. Mas não se pode proibir uma garota de quinze anos de fazer algo, sabia? Quando eu era criança ela proibia e eu abaixava a cabeça, mas agora... Agora eu sou livre, livre como minha mãe já foi quando tinha minha idade. Sou um espírito solto vagando por este berço esplêndido. Sou uma andorinha saída do ninho, passarinhando de costa a costa, cheia de histórias. Carrego tudo o que preciso aqui comigo: uma trouxa de roupas, água, castanhas, e, bem, minhas histórias. E, agora que visitei papai, e antes que eu volte para Goiânia, ainda aproveitando meu voo rasante, resolvi passar aqui por João Pessoa, visitar esta pontinha tropical da América, para ver a senhora também, vovó – Sofia gesticulava enquanto tagarelava, e quando terminava, apoiava as mãozinhas agitadas na cintura, exatamente como a mãe. Cecília lembrou-se da filha novamente.
     – Você não está encrencada, não é mesmo, Sofia? Você não está...? Se você estiver... – Cecília não completou. Não conseguiria. Receava que a neta estivesse seguindo as pegadas da mãe e não aguentaria tanta dor novamente, e porque não saberia o que fazer se a menina lhe apelasse para ser um porto seguro. Cecília temia pelo pior. – Você não gostaria de...?
     – No momento, vó, o que eu mais gostaria era de saborear um chá – e descarregou a mochila sobre o tapete da sala, como se tivesse fincado a bandeira de um país conquistador.
     Um chá. Por que o dia tornava-se tão saudosista? Cecília foi ferver a água, e, pela porta da cozinha, espiava a neta, que descansava da louca viagem pelo país sentada no sofá e balançando as perninhas para frente e para trás, novamente como a mãe. E se Maitê não tivesse ido, serviria chá para a neta agora? Cecília voltou para a cozinha. Para o presente.
     – E como está o seu pai, Sofia? Sabe, eu só conheço o Almir por foto. Quer um pouco de leite no seu chá, querida? – e esgueirou os olhos novamente para a sala.
     – Fazia três anos que eu não o via também. Só um pouco de leite, vó. Mamãe sempre disse que meu pai era um vagabundo. Mas eu percebi que ele é um vagabundo iluminado, um Buda da boemia. E lá na dourada Bahia, ele resolveu morar com o pai. Também nunca tinha conhecido o pai dele, e como esse vovô é gente boa. As pessoas não são bem o que ouvimos falar delas. Elas são o que são. É só procurá-las que elas estarão lá. Dois torrões de açúcar, por favor. Você poderia ir nos visitar, em Goiânia, vovó. Papai prometeu que iria, então poderíamos ter uma grande noite de Natal, qualquer ano desses, apesar de tudo. Quer dizer, mesmo que não sejamos uma família convencional. Mesmo que a gente quase não se fale, ora, somos uma família, não é mesmo? Afinal, por que não nos falamos? Gostaria de saber.
     Sofia deteve a tagarelice por um instante – mesmo que seus olhinhos negros continuassem agitados, pululando pela sala –, enquanto a avó retornava carregando uma bandeja, chaleira, duas xícaras de porcelana, açúcar, e um rosto condescendente.
     – Você tem uma bela casa – elogiou a menina, voltando à fala. – Claro que eu a imaginava maior, porque era a impressão que eu tinha quando vim aqui da última vez. Mas lembro-me desse extenso livreiro e desse caneco de barro com a letra L esculpida nele. Eu sempre achei que era por ser o caneco do L-ivreiro, mas quando perguntei para mamãe ela me disse que era apenas um caneco triste e que você gostava dele porque você gostava de ficar triste. Mas tirando o caneco triste, é mesmo uma bela casa. Não sei por que mamãe foi embora daqui.
     – Eu também, Sofia. Eu também gostaria de saber os porquês. Agora beba o seu chá, minha pequena – Cecília havia repousado a bandeja de prata na mesa de centro e acomodou-se desconfortavelmente em sua poltrona, esperando que a neta dissesse algo, contasse alguma novidade, mas agora Sofia já havia tecido a sua teia e queria ouvir o que a avó tinha a dizer.
     – Sua mãe Maitê mudou muito depois que o pai morreu. Ela tinha sua idade na época – suspirou Cecília. – Seu avô Sebastião, Deus o tenha, era muito rígido com ela. E quando ele se foi, sua mãe começou a agir como se tivesse sido terrivelmente posta em liberdade – a avó provou um gole, resfolegou, e continuou. – Meses depois, Maitê começou a sair de casa e a vagar pela cidade, depois por todo o agreste, depois pelo país. Queria viver suas próprias aventuras. Às vezes ela trazia para cá amigos viajantes também. E o que eu poderia fazer? Começamos a brigar cada vez mais e mais intensamente, até que um dia ela arrumou sua última trouxa de roupa para nunca mais voltar. Dizia que era uma mochileira em peregrinação pela América tupiniquim – Cecília repousou a xícara vazia na bandeja e agora olhava para o chão, reclinando a cabeça e revirando as mãos trêmulas. – Foi nessas andanças que conheceu seu pai, o Almir, um mochileiro assim como ela. Duas crianças...! Só soube de você depois que já tinha nascido... Um cartão e uma foto! Apenas mandaram um cartão e uma foto. Duas crianças para cuidar de outra criança. E eu tinha tanto medo de que o Almir fizesse alguma maldade com vocês depois que sua mãe o deixou! Mas acho que também sou culpada. Enchi tanto a cabeça dela com histórias pitorescas de quando eu era jovem, que...
     – Conte-me uma! – interrompeu a menina, também descansando sua xícara vazia na bandeja e retornando ao seu estado natural, inquieto e articulado. – Estou há dias sem ouvir uma boa história. O pai do Almir é um ótimo contador de histórias, mas, no caminho de lá para cá, não encontrei um bardo que conhecesse uma história melhor do que as minhas. E como você é escritora, aliás, sempre leio o seu livro de poemas que você me deu quando eu tinha dez anos, então sei que você tem boas histórias. Não tenha medo. Não vou virar uma mochileira adolescente, afinal, eu já sou uma mochileira adolescente.
     – Ora, o que uma mulher de meia-idade como eu poderia contar que surpreendesse uma andorinha vivida como você, não é mesmo? – sorriu a avó, acariciando o joelho da neta e aliviada por não ter mais que falar de Maitê.
     – Bem, vovó. Que tal começar com a história do caneco de barro, do qual você não desprega os olhos desde que cheguei? – arrematou a diabinha.
     Cecília cobriu o rosto com as mãos frias, como que flagrada no meio de um delito. Havia suportado o quanto pôde voltar quinze anos no tempo diante de uma criança. Mas voltar quase quarenta anos diante de uma desconhecida fê-la perder as forças.
     – Eu prometo – insistiu Sofia –, que não lhe peço mais nada. Nem deixo mais mamãe pedir dinheiro. Volto hoje mesmo para Goiânia, e você nunca mais vai precisar ser incomodada de novo. Eu só queria levar em minha mochila mais uma história.
     – Menina atrevida! – irrompeu. – Não foi o bastante cortar o país? Quer agora atravessar meu coração também? – Cecília virou o rosto para a menina e viu que por um segundo havia gritado para Maitê, de modo que se desculpou, enquanto sentava-se na poltrona novamente: – Você não tem culpa de nada, entendeu, Sofia? Essa não é a sua história, é a minha história. Mas já que você insiste, já que você chegou, fique, criança. Beba mais uma xícara de chá, por favor. Está bem, para você contarei a história do caneco.
     A história do caneco triste do livreiro.
    
     ~ ’’ ~

     Era nosso último ano no secundário, e estávamos alvorecendo. Nossas bochechas coradas, nossos olhos de brilho esmaltado... Irradiávamos uma aura de esperança como só se irradia aos catorze anos – e, aos catorze anos, nossos melhores amigos são, pela última vez, os amigos da escola. Meus amigos inseparáveis – e, ó, nos separaríamos – eram Elisa, Benício e Lyam. Éramos D’Artagn-Lyam e os Três Mosqueteiros. Assim nos chamávamos.
     Elisa era minha melhor amiga e confidente. Passeávamos com nossas bicicletas por toda a João Pessoa. Fazíamos piqueniques no jardim e dormíamos na casa uma da outra. Foi a mãe de Elisa quem me ensinou a preparar os mais diferentes tipos de chá – com flores, com ervas, com mel. Cada cerimônia do chá na casa dela era um ritual muito respeitoso. Conversávamos sobre tudo, mas principalmente sobre os poemas que eu escrevia. A mãe de Elisa dizia que se eu era uma poetisa, deveria beber chá como se bebesse poesia. Eu nunca a havia entendido até o dia em que ela me emprestou um livro que contava a história de um antigo poeta japonês chamado Bashô. A partir de então eu passei a beber cada chá como se bebesse poesia.
     Já Benício era um irmão que nunca tive. E era meu maior fã. Lia todos os meus poemas, e, juntos, chegamos a escrever uma peça de teatro para a escola, e até montamos o cenário. Ele gostava de música também, e inclusive compôs uma canção para mim. Acho que, no fundo, ele gostava era de mim. Mas meu coração palpitava por outro.
     Lyam causava isso nas pessoas. Ele tinha uma vivacidade e um espírito de aventura que contagiava toda a gente. Era escoteiro, e conhecia cada lago, cada manguezal, cada praia da cidade. E chegou a construir uma ponte de cordas, que virou um brinquedo, no pátio da escola. Mas o mais admirável era que uma das suas atividades preferidas como escoteiro era ler para idosos de um asilo, nas manhãs de domingo. Nada como compartilhar ele mesmo suas aventuras com os que já tinham muitas histórias de vida. Um dos idosos era um professor aposentado que perdera a visão, e Lyam passara a ler para ele seus velhos livros de filosofia, antropologia e sociologia. Eu havia acabado de ler a Divina Comédia e me achava culta para a idade, mas, naquela época, Lyam já lera Sêneca, Kant, Marx, e metade da Escola de Frankfurt. Então, de certa forma, eu o invejava – mas uma inveja boa, que descompassava o coração. Era mais uma admiração, uma vontade doída de também amontoar dias cheios de vida, encontrando o tempo para fazer de tudo um pouco e ler de tudo um pouco.
     Certa manhã, faltando duas semanas para as aulas terminarem, Elisa e eu encontramos Lyam sobre os degraus de entrada da escola, comentando com Benício de ter lido no asilo, no dia anterior, o relato antropológico de Marcel Mauss sobre o conceito de Mana entre tribos polinésias.
     – Sabem de uma coisa? – refletiu Lyam, mirando além do horizonte. – Qualquer dia desses, eu ainda me aventuro pelas ilhas do Pacífico, onde vou poder acordar todas as manhãs sob o sol renovado do oriente e ser a primeira pessoa entre todas do mundo a receber cada novo dia, tipo “Ok, sol, aqui estou eu”, eu diria, “Aqui estou como a pessoa que vai receber primeiro a sua pura glória todas as vezes. Seja bem-vindo ao novo dia. Após mim, o resto das bilhões de pessoas desta nave o esperam. Pode passar”, eu diria, “Agora pode passar”. Eu seria o porteiro do sol. Eu faria isso só para repetir tudo outra vez, sem arrependimento, à luz do Eterno Retorno, como escreveu Nietzsche. Você vive uma vida que gostaria que se repetisse eternamente, cada dia exatamente como é, tudo outra vez, Benê?
     – Fale mais sobre esse tal de Mana, Lyam. E que vontade é essa de sair pelo mundo atrás do sol? – perguntamos.
     – Mana é a nossa força, nossas almas querendo se unir umas com as outras e com o universo. É o que eu sinto quando estou com vocês, é minha vontade de estar com vocês e retribuir a amizade de vocês, meus mosqueteiros!
     Adorávamos quando Lyam compartilhava suas visões sobre o novo-melhor-jeito de se encantar com o mundo. De repente, ele deu um salto da escada e começou a pular pela calçada. Era assim que ele fazia quando tinha uma grande ideia.
     – Ei, amigos. Que tal uma troca de presentes contemplativos entre nós? Um Mana que seja lembrado para sempre? Será um tipo de rito de passagem para o colegial.
     A primeira ideia que lhe veio à mente foi acampar em um manguezal, onde ele já havia estado algumas vezes como escoteiro. Mas nós não tínhamos barracas nem nossos pais permitiriam que passássemos a noite fora. Então Elisa e eu nos olhamos e pensamos logo no velho Bashô, em como aquele japonês peregrinava por paragens bucólicas, vendo poesia em tudo, e assim não descartamos completamente o acampamento, mas sugerimos que ao invés de passarmos a noite, fizéssemos uma solene cerimônia do chá sob o luar.
     – Isso, meninas! Esse é o espírito! A cerimônia tem que ser algo nosso, saído de nossas habilidades. O Mana tem que emanar de nós mesmos. Não deveríamos levar nada feito por outras pessoas.
     Lyam deu a ideia de que a água do chá poderia ser retirada do rio, e o próprio Lyam faria a fogueira para aquecer a água. Elisa comprometeu-se em levar os ingredientes cultivados em seu próprio quintal. Eu comprometi-me em aromatizar o chá levando flores do meu jardim, além de ler meus mais novos poemas. E foi então que Benício teve a ideia:
     – Vocês pensaram em que copo irão beber o chá? E em que chaleira irão aquecer a água?
     Não havíamos mesmo pensado nisso. Se cada elemento da cerimônia deveria ser criado por nós, não deveríamos beber em copos que não fomos nós que criamos. Mas também sabíamos que se Benício resolvera tomar a liderança em algo era porque já tinha uma resposta pronta.
     – Bem, eu não sou nenhum escoteiro – continuou –, mas com a orientação de vocês, posso esculpir os utensílios em argila, e não argila comprada em alguma loja, mas com argila tirada das margens do próprio rio do manguezal.
     Lyam uivou de alegria, porque em poucos minutos tínhamos programado uma troca de presentes mística usando apenas a natureza e nós mesmos. Percebemos que nosso encontro seria completo e perfeito. E todos nos abraçamos em comemoração.
– O Benê fará um copo de recordação para cada um de nós! Aí está um Mana que teremos para sempre emanando em nossas vidas! – vibramos.

     ~ ’’ ~

     No último final de semana antes das férias, lá estávamos nós reunidos na estrada para o manguezal. Elisa havia trazido alecrim, e eu havia trazido pétalas de rosa e flores de camomila. Lyam e Benício chegaram logo em seguida com mochilas de acampamento, e Benício carregava sobre os ombros a chaleira de barro, pendurada em uma vara de madeira, e os dois mais pareciam personagens de Monteiro Lobato. Fomos entrando pela trilha conhecida e Lyam ia na frente, indicando que tipo de madeira deveríamos recolher para fazer a fogueira e procurando o melhor caminho por entre a mata a fim de alcançar o estuário.
     – Aqui vamos nós para ouvir a voz da natureza. Haverá música e canto na piscadela diamantina das estrelas, no aplauso das águas, na dança dos ventos... – cantarolava.
     – Na reza dos grilos, na dança das rãs, pulando de alegria – continuei.
     – Rãs?! – interrompeu Elisa, preocupada –. Vocês acham que há muitas rãs por aqui?
     – Bem, mosqueteira. Estamos entrando em um manguezal.
     – Quem sabe, Elisa, você não se depara com uma rã pulando em um charco e não acaba alcançando o céu, como Bashô?
     – Cecília, querida, se eu me deparar com uma rã na minha frente, com certeza eu alcançarei o céu, por causa do tremendo pulo que eu vou dar.
     Lyam passou a guiar-nos em fila através de uma trilha natural que ele reconheceu, afastando-nos da trilha comum. Em alguns trechos, as árvores cobriam o céu e a luz do sol descia sobre nós como cortinas suaves e místicas. Às vezes, borboletas e libélulas dançavam com as cortinas de luzes, subindo e descendo, como bailarinas angelicais entre o céu e a terra. Até que alcançamos finalmente uma clareira no estuário, à beira do rio, onde os escoteiros costumavam acampar. Lyam e Benício armaram o suporte para a chaleira, enquanto Elisa ajeitava a lenha e eu procurava tocos de árvore para sentarmo-nos. Em seguida, Lyam começou a fazer o fogo e Benício enchia a chaleira com a água do rio. Sentamo-nos em volta da fogueira e começamos a sentir a magia da floresta. O mundo já ia cabendo em nós. Benício tirou da mochila uma flauta-de-pã e começou a tocar uma melodia que havia composto.
     – Bela música, Benê. Mas lembre-se de que nosso Mana deve emanar de nós mesmos. E essa flauta aí?
     – Meu caro Lyam, se tudo o que temos aqui só pode ter sido feito por nós, deveríamos estar todos nus neste momento – rimos. – E fique sabendo que isto é uma antara, e eu a construí sozinho usando os caniços e as raízes das margens desse rio. Portanto, todo este Mana é meu, e, agora, nosso – e voltou a agraciar-nos com sua encantadora melodia.
     Então subitamente nos demos conta de que não havia outra melodia como aquela, porque não havia outro Benício, nem outra antara igual no mundo. Cada um de nós era exclusivo, uma manifestação única do universo. Aquele momento de harmonia e amizade realmente nos iluminou e nos preencheu, era nosso primeiro satori, e íamos conversando alegremente. O sol se punha, e brancas nuvenzinhas espalhadas no céu azul como chuvas de pipoca se convertiam em pétalas de rosa, enquanto um grupo de nuvens amontoando-se no horizonte abraçou o sol poente. Cada um deslumbrou uma imagem distinta. Eu via a deusa Athena iluminando a humanidade de seu panteão. Elisa imaginou um aconchegante casebre de granito de onde podia ver através da janelinha iluminada amigos celebrando a vida. Lyam viu reluzindo de um baú aberto um tesouro dourado revelado para o mundo. E Benício imaginou uma olaria com o forno aceso, pronto para moldar a vida do jeito que se quisesse. E tão logo o sol se pôs, a lua cheia, branca e rechonchuda como as bochechas de um monge budista, apareceu para visitar-nos. Ao vê-la, Lyam uivou como um lobo e todos rimos. Ah, nossos corações palpitavam univérsicos. Em meu peito apertava uma agitação contida, como se dentro dele brincassem crianças em uma piscina sob um dia de verão. Eu havia visto um mundo naquele entardecer. Tudo era tão poético, tão zen! Minha mão apoiada no joelho de Lyam, a palma recebendo a luz do luar. E quando a lua foi se pendurando no topo do céu iridescente, flutuando de camarote pela eternidade, parecendo iluminar como um holofote a clareira, sabíamos que era a hora perfeita para bebermos o chá. Benê tirou de sua mochila quatro canecos e os distribuiu. Para nossa surpresa, ele havia talhado as iniciais de nossos nomes em cada caneco. Quando Lyam recebeu o dele, pediu para mim que os trocássemos. Perguntei o porquê e ele disse carinhosamente que queria emanar mais esta troca de Mana entre nós. Eu sorri enrubescida e aceitei. Elisa colocou dentro de cada caneco um ramo de alecrim, e eu acrescentei uma pétala de rosa e um caule de camomila, e os enchemos gentilmente com a água aquecida. Um aroma místico e profundo nos inundou e todos brindamos aquele momento maravilhoso. Eu recitei um haicai novo que havia elaborado e assim todos bebemos do chá, ao mesmo tempo. Naquele instante Elisa e eu sentimos o que Bashô sentiu, o que Buda sentiu. Naquele instante éramos cinco amigos – Lyam, Benício, Elisa, eu – e o tempo.

     ~ ’’ ~

     Dois dias depois que as aulas terminaram, Lyam marcou comigo de nos encontrarmos em uma lanchonete perto do Centro. Quando eu cheguei, ele já estava lá, em uma mesa ao fundo, com o rosto abatido. Crianças barulhentas brincavam na calçada, o céu brilhava sobre as bromélias, e Gilberto Gil terminava de cantar “Esses Moços” no rádio. Fui até ele, e Caetano começou a cantar “Felicidade”. Perguntei o porquê da aparência triste e gelei quando Lyam contou que lamentava, mas queria apenas despedir-se. Seu pai precisara mudar-se para o Chile e toda a família teria que ir com ele. Sentei-me, sem dizer uma única palavra. Lyam brincava passando por entre os dedos uma garrafinha vazia e outra com areia rosa dentro. Perguntou se eu já havia visto areia rosa antes, e contou-me que um tio dele havia engarrafado a rara areia rosa das praias de uma ilha caribenha perto da Venezuela.
     – Rosa é a cor da alvorada e do entardecer, quando não é nem dia nem noite; é a cor da transição, do porvir. Também é a cor preferida dos poetas. Por isso eu vou lhe dar um presente poético – dizia enquanto transferia um pouco da areia de uma garrafa para a outra, deixando as duas cheias até a metade, prosseguindo com o rosto mais sério que meus olhos, marejados, já haviam visto na vida. – Agora nós temos um compromisso. Precisamos voltar a nos encontrar um dia, no Caribe, para completarmos essas garrafas com mais poesia.
     Assim era Lyam. Eu também queria lhe oferecer uma lembrança, mas só o que veio à minha mente naqueles últimos momentos foi dar-lhe uma mecha cortada de cabelo. E foi assim que Lyam, sem dizer uma palavra – enquanto Caetano dizia por ele que a “felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora...” –, beijou meus lábios, pela primeira e única vez, tocou levemente minha mão e foi embora para sempre. E essas foram as últimas lembranças que tive de Lyam – uma garrafa com metade de poesia e o caneco de barro que havíamos trocado na mata. O caneco triste do livreiro.

     ~ ’’ ~

     Cecília e Sofia suspiravam, de volta à sala aconchegante.
     – E você guardou até hoje a garrafa com a areia rosa, vovó?
     Cecília respondeu que não, maneando a cabeça e com um leve sorriso esboçado no canto da boca.
     – Quando conheci seu avô Sebastião, na faculdade, soube que ele era o homem certo para mim. O homem para a vida toda – respondia com a voz pausada –. E quando compramos esta casa, dispersei toda a areia pelo jardim, como cinzas do que já se foi, lançadas ao vento.
     – Você amava o vovô? Quero dizer, o amava como amou Lyam?
     – Menina, você ainda tem tanta estrada para percorrer com essas perninhas agitadas... – riu descontraidamente, e por um momento Cecília sentiu-se novamente a dona da casa. – Nunca pergunte a uma mulher se ela deixou de amar. No coração das mulheres cabem muitos amores. Eu amei Lyam como Lyam. E amei Sebastião como Sebastião. Claro que eu sinto falta dos dois. Eu seria tola se dissesse que não sinto falta de seu avô, mas sei em meu coração que vivi tudo o que havia para ser vivido com ele até o dia em que ele se uniu às estrelas. Mas com Lyam é uma saudade pessoal, reprimida, refreada, como o breve florescer do ipê-branco em agosto. E às vezes eu fico fantasiando se Lyam foi o tipo de universitário que jogava sinuca enquanto discutia Kant, e que depois rodaria pela América do Sul em uma motocicleta, antes de se casar em alguma ilha de Bali, para hoje ser um professor inspirador de uma geração, até se aposentar e ir morar em alguma praia caribenha, terminando a vida escrevendo suas memórias em colunas de jornal... E onde caberia uma poetisa nisso tudo? Por isso a única lembrança que ficou como uma porta entreaberta foi esse caneco de barro – Cecília inspirou, voltando-se para o livreiro. – Sabia que eu ainda posso sentir o amável perfume das flores vindo do caneco? Quando isso acontece, sinto-me abraçada pelo amor de Elisa, de Benício, e de Lyam, e é como se fôssemos D’Artagn-Lyam e os Três Mosqueteiros, e como se eu estivesse naquela mata novamente, sentindo a infinidade tremenda do universo inteiro em um único segundo de amor.
     – Mamãe tinha razão – comentou Sofia. – É mesmo uma história triste. Mas também é uma história de amor. Mais uma para eu levar comigo em minhas andanças – e sorveu ruidosamente seu último gole de chá, já morno, e pulou de volta para sua mochila.
     Lá se ia a inesperada e até imprevisivelmente agradável companhia. Cecília já ia pedir gentilmente para que ficasse um pouco mais, ou que seria um prazer recebê-la novamente, quando a neta tornou-se de volta e fez o seu coração paralisar, depois palpitar aceleradamente – mas como a danadinha...?
     – Sabe, vovó. Você imaginou muitas coisas sobre Lyam durante esses anos todos. Mas o que eu sei – dizia Sofia, carregando uma prenda nas mãos... –, é que ele não está compondo músicas em algum bangalô caribenho. Está apenas dando suas aulas inspiradoras em Ilhéus, onde mora com o filho, que, quis o destino, fosse o meu pai – Cecília retornara quase quarenta anos no tempo mais uma vez e mal pôde acreditar que sua neta, seu rebento, sua santa espertinha, segurava em suas mãozinhas agitadas, mas agora comedidas, uma dádiva, um tesouro, uma garrafa com areia rosa até a metade e uma mecha de cabelo claro presa à tampa. – Isto aqui estava ao lado de um caneco de barro igualzinho ao seu, mas com a letra “C” talhada nele, em cima da pequena estante da casa do vovô – continuou Sofia. – Depois que ele me contou a história do caneco triste dele, fiquei animada em contar a minha história. Mesmo surpreso e maravilhado, ele não me deixou levar o danado do caneco, mas disse que eu poderia ficar com a garrafa, se eu encontrasse a garota que prometeu preenchê-la com poesia. E aqui estou eu, vó. Aqui estou eu como um diabinho nietzschiano para lembrar que se cada dia da sua vida fosse repetir-se eternamente, pergunto qual seria sua escolha agora, pergunto se você tem amor ao seu destino, ao destino que se apresentou diante de você o tempo todo, e até pelos tortuosos caminhos de mamãe e de papai, para que tudo, até eu aqui, fosse exatamente como deveria ser. Afinal de contas, vovó, eu sei que tenho muita estrada para andar, mas desde cedo já aceitei estoicamente que o destino conduz os bem-dispostos mas arrasta os relutantes. Então, eu não sei, vovó, se você vai deixar acontecer, se você vai continuar relutando contra o seu destino. Sinceramente, eu não sei.
     Cecília também não sabia. As palavras haviam fugido mais uma vez, da Cecília vivida e da jovem Cecília de rosto corado e olhar esmaltado. Sofia entregou a prenda para a avó, que agora deixava transbordar pelo rosto desnudado estrelas cadentes da alma, da alma que ardia novamente com a chama que um dia havia aquecido um mundo inteiro.


(publicado em: Palavra é Arte – Contos e Crônicas, 2018)
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 14/06/2015
Alterado em 26/12/2018
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