Vitor Pereira Jr
Contos, Crônicas e Versos
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A Grande Mãe


       Era um domingo ensolarado como haviam sido muitos outros antes, exceto pelo fato de que eles, de agora em diante, não teriam mais a mãe. Por três mil domingos ela havia sido a mãe. Agora eles estavam sós. Eles a conheciam mesmo apenas como mãe, nunca a chamaram pelo nome. Ela havia sido apenas mãe. Já ela os conhecera como bebês, infantes, adolescentes, adultos, trabalhadores, cônjuges, progenitores.
       — Não é justo, não é mesmo? — suspirou Fabrício, olhando seu reflexo na janela ao mesmo tempo em que via, através do triste espectro, as pessoas que passeavam pela rua.
       — É o caminho da vida. O destino de todos nós. Morrer é melhor do que sofrer. — ponderou Breno. Sorveu um gole de café, e, retinindo a xícara no pires como uma sineta, apoiou a mão no ombro do irmão: — Lembra-se de como corríamos por essas ruas, apostando quem chegava ao fliperama primeiro? Hoje não corro nem atrás do meu filho. Quem correu foi o tempo. Ele ganhou a corrida — um táxi estacionou na esquina. Breno limpou o canto da boca com o guardanapo e deixou o dinheiro na mesa, levantando-se.  — A gente leva 50 anos para chegar aos 15, e 15 anos para chegar aos 50 — abriu a porta do restaurante e, deixando que o irmão passasse primeiro, saiu. Tocou seu ombro mais uma vez — É o caminho da vida.
       Duas mulheres saíram do táxi e abraçaram Breno ao vê-lo. Fabrício as abraçou apenas com os olhos.
       — Por que não nos esperaram na rodoviária? Eu as teria buscado — a voz de Breno saiu abafada em meio aos casacos das irmãs.
       — Queria me encontrar com vocês aqui. É mais familiar, crescemos nessas ruas. Eu queria ir andando daqui, a esquina onde nos encontrávamos para voltar para casa após os passeios de domingo — explicou a mais velha, acariciando o rosto enrugado do irmão com as pontas dos dedos. — Céus! Como você está diferente! — exclamou Vânia, admirada.
       — Fabrício! — Fabíola pulou sobre o caçula, envolvendo seu pescoço rijo com os finos e trêmulos braços.
       — Vocês já viram mamãe? —Vânia perguntou aflitiva, e ia de braços dados a Breno.
       — Não, ainda não — Breno envolveu seu outro braço na cintura de Fabíola —Resolvemos esperar por vocês. Teríamos preparado tudo, é claro, mas quando o padre Estêvão nos telefonou, prometeu que a paróquia cuidaria dela. Era o que queriam. Afinal, foram eles os amigos dela a vida toda.
       — A vida toda... — suspirou Fabíola, abraçando Fabrício e recostando a cabeça em seu ombro magro. Os quatro irmãos iam alinhados pela larga e longa calçada da infância, pela calçada por onde há muitos anos não andavam.
       Chegaram.
       O portão de madeira aberto. O quintal, em ordem. Fabíola e Vânia não viam mais sobre a grama a casinha de bonecas e os brinquedos espalhados. Breno não via mais sua mãe correndo atrás dele empunhando uma colher de pau. Fabrício olhou para o lado, e era de mãos dadas à mãe que ele quase sempre chegava em casa. A porta da frente estava escancarada. De dentro da casa não se ouvia o barulho costumeiro de quando os irmãos moravam lá. Nada de grito, de choro, de gargalhadas, de panelas caindo no chão, nada de televisão ligada, de som alto. Estranharam o coro suave que ecoava para fora. Estranharam as poucas luzes acesas e o tremular bruxuleante das velas sob as janelas. Estranharam as pessoas que lá estavam. Estranhavam a casa. Eles eram os estranhos.
       Eles eram os estranhos. Vânia quis saber se todos reconheceriam os amigos da mãe. Fabíola recordava dos nomes, mas não dos rostos. Aproximaram-se devagar, quase que pedindo licença para entrar na antiga casa. Fabrício limpou a sola dos sapatos no tapete da varanda, quando então foi pego percebendo que ninguém mais ralharia com ele por entrar com os pés sujos. Vânia imaginou ter ouvido a voz familiar que sempre a saudava quando passava por aquela porta, mas a voz que os saudou era de uma velha amiga da família.
       — Meninos, vocês vieram! Sua mãe ficaria tão feliz de vê-los juntos, aqui. Ela está no quarto. Fiquem à vontade. Se precisarem de algo...
       Os irmãos passaram pela sala, apertando mãos desconhecidas e acenando para rostos já esquecidos. Sentavam-se no sofá em que Breno pulava, recostavam-se nas paredes que Fabrício havia riscado. Abraçavam as almofadas de Fabíola, que pegou uma e a levou consigo. Velas iluminavam tétricas os porta-retratos das fotos preferidas de Vânia. Até que chegaram ao quarto da mãe.
       A porta estava aberta. Duas vizinhas saíram, lenços levados ao rosto.
       Entraram, com um aperto de culpa, como se tivessem quebrado o vaso da estante. Mas não haveria mais bronca, nem colo. Só havia ela, imóvel.
       Lá estava ela, a Grande Mãe, a Rainha do Mar, o Cálice Sagrado, a Sempre Virgem, a primeira e a última de todas as mulheres, a fonte infinita de copo de leite quente. Agora sem mais preocupações, sem mais noites em claro, sem mais pedidos manhosos. Enfim podia descansar.
       E do meio daquela visão, Vânia sentiu um vazio comprimindo sua existência. Com quem passaria o Natal? Quer dizer, ela já havia passado vários feriados sem a mãe, mas é que antes ela podia escolher ficar sozinha. Fabrício inspirou o perfume ao qual ungiram a mãe. Mas não era este o cheirinho dela, e Fabrício teve saudades das mãozinhas com perfume de alho e cebola. Era o cheirinho das mãos da mãe que o tranquilizavam de ter sido bem cuidado. Fabíola notara no quanto a mãe estava calada. A mãe nunca se calava. Quem iria agora telefonar para Fabíola e contar por horas sobre os vizinhos e seus acontecimentos inúteis ou sobre a dor na perna que só doía quando se telefonava? Os acontecimentos inúteis pareciam úteis agora. E Breno – Breno lembrava-se da mãe sorrindo para o pai, jogando pratos no pai, da mãe sorrindo para os filhos, e rindo das piadas que Breno contava, de como paparicava irritantemente o primeiro neto, filho de Breno, e dava ao menino refrigerante quando o pai não estava olhando. De que valia agora quem estava certo ou errado sobre o mundo? Breno preferiu ficar atento à conversa das velhas amigas da mãe que, da cozinha, comentavam sobre como o jardim estava sendo bem cuidado e sobre a horta recém-cultivada e do quanto a mãe deles havia sido uma batalhadora. Ele queria apenas ficar assim, ouvir como a mãe seria lembrada pelos seus mais próximos.
       De pé, próximos à porta, os quatro irmãos permaneceram um ao lado do outro em silêncio, a divagar sobre o caminho entre o viver e a parada final. Feixes de luz passavam por entre as persianas do quarto, como cordas de uma rede celestial sustentando a mãe ali tão serena e pacífica que aquilo parecia ter sido feito para a ocasião. Algo apropriadamente angelical. E os quatro ficaram a admirar a mãe sem dizer uma palavra, perdidos em suas lembranças e em suas dúvidas. Por quanto tempo ficaram parados, alinhados naquela posição, não sabiam dizer. Talvez tivessem sido poucos minutos, mas a impressão era de que estivessem eternizando o momento, posando para a nova foto de família agora sem ela, ou para um pôster de alguma peça de teatro – o drama da vida, esse seria o nome da peça. As irmãs aproximaram-se primeiro e ficaram um tempo soluçantes acariciando os cabelos da mãe. Suas pálpebras cerradas escondiam os olhos de verde intenso, que todos os filhos queriam ter tido, mas não tiveram, tinham olhos castanhos. Fabíola tinha algo de castanho esverdeado, mas mesmo ela desejava ter tido os olhos da mãe, e queria ter se lembrado de quando os viu pela última vez. Em seguida, Breno repousou suas mãos sobre as mãozinhas unidas da mãe, murmurou algumas palavras ternamente e saiu de volta para a sala. Não chorou, como ela mesma gostava que fossem os homens. Homens não choram. Fabrício sussurrou aos ouvidos da mãe enquanto cingia um sinal da cruz em sua testa, e depois, quando o coral começou a entoar baixinho um hino antigo mas que eles não conheciam, Fabrício acompanhou as irmãs de volta a sala, apoiado em seus braços. O padre Estêvão cumprimentava Breno:
       — Vocês gostariam de dar início aos discursos e dizer algumas palavras sobre sua mãe? — cochichou, repousando as mãos no ombro de Breno, que, virando-se para os irmãos, esperava que um deles se prontificasse. As irmãs enxugavam as lágrimas que cascateavam pelo rosto vermelho e Breno voltou os olhos para o caçula, que apenas deu um sinal com a mão para que Breno fosse o primeiro, por ser o mais velho, e logo recuou para o fundo, de modo que Breno viu-se sacudindo a cabeça positivamente, e o padre dirigiu-se ao púlpito e iniciou a cerimônia com uma oração.
       As amigas de coral da mãe acolheram Fabíola e Vânia nas cadeiras da frente enquanto lhe serviam chá. Fabrício não quis sentar. Preferiu ficar de pé, no fundo da sala, recostado ao batente, ora mirando o irmão, ora mirando o tapete e as cortinas com os olhos umedecidos. Quando todos se acomodaram, Breno pegou o microfone e, agradecendo a presença de todos, acenou para os irmãos e os antigos vizinhos com o olhar, pigarreou, e iniciou bruscamente gesticulando com os braços estendidos:
       — “ATENÇÃO! ATENÇÃO! TEMPESTADE! TEMPESTADE!”, avisava o computador da nave intergaláctica. Lembro-me disso como se fosse ontem de manhã — assim Breno iniciou seu discurso, e os ouvintes murmuravam entre si atônitos, franzindo a testa, perguntando-se do que se tratava aquela introdução misteriosa.
       — “Dá um jeito de sair dessa!”, um dos tripulantes da nave pediu para a líder — Breno prosseguiu com a narrativa —, “Eu tô tentando!”, respondeu ela. “Tô com medo, poxa!”, “Eu também tô!”, admitiam as crianças impotentes. “Agora o jeito é um só”, concluíram: “MANHÊÊÊÊÊÊ!”, elas rogavam. Eu lembro que, então, das profundezas do universo, uma gradiente de luzes e as notas de um piano em crescendo encantavam a mim, a meus irmãos, e a todas as crianças que, do outro lado da tela do televisor, assistíamos em 1983 pela primeira vez o programa infantil “Plunct, Plact, Zuuum”.
       A sala agora estava em silêncio, e Breno prosseguiu com o discurso:
       — “Mãe!”, foi o que eles pediram — enfatizou —. E para nosso encanto, e futuro aprendizado, surgia, então, radiando de um halo multicolorido, a cantora Maria Bethânia, lembram?, toda de branco, no papel de deusa-mãe, cantando “Brincar de Viver”, consolando as crianças do filme e mostrando o caminho para todos nós do outro lado, ensinando que — Breno encolheu os lábios, apoiando-se ainda sobre o púlpito, — ensinando que não importa o quanto você tenha descoberto sobre si mesmo em sua aventura até aqui, ou o quanto você tenha viajado, e visto coisas maravilhosas, e aprendido sobre o seu lugar no mundo. Durante a volta à realidade, ao medo diante das adversidades, das tempestades, tudo isso nos faz perceber que nem sempre nós sabemos dar um jeito, e que diante dos desafios o jeito mesmo é ser envolvido pelo amor e pela orientação da grande mãe universal. Não se fazem mais programas como “Plunct, Plact, Zuuum” hoje em dia. Nos anos 80, os roteiristas e músicos sabiam o que estavam escrevendo. Eles sacavam das coisas. Eles sabiam que não importa o quanto você conheça da vida adulta, você precisará de uma Grande Mãe para guiá-lo diante das tempestades. Que o digam os psicanalistas. Meu irmão sabe disso mais do que eu. Afinal, ele foi o que menos apanhou, por isso virou psicólogo. Mas acho que — piscou maternalmente para o caçula, que sorria pela primeira vez desde... — acho que mesmo o famoso Freud faltou entender que, se as mulheres invejam o falo, os homens invejam o útero. Sim, nós homens invejamos o útero. Quem dera eu trazer ao mundo novas vidas. Quem dera eu sentir em meu ser um mundinho se criando e nascendo. Quem dera eu alimentá-lo de mim mesmo. Sim, quem dera eu ter sentido e aguentado as dores pelas quais minha mãe passou. Ela saberia do que estou falando. Por isso, neste dia pesaroso para todos nós, amigos e familiares, eu quero homenagear minha mãe, que carregou quatro filhos na barriga, nos trouxe a este mundo, nos alimentou, nos deu colo, ensinou nossos primeiros passos, aturou o meu velho até finalmente enxotá-lo, e que, como último ato, assistiu nossa decolagem por terras estranhas, na esperança de que soubéssemos chamar diante de qualquer tempestade, não mais ela mesma, mas a mãe que vive em nós, e, assim, saber que quem nos daria colo e varadas nas pernas seria a vida lá fora — Os irmãos e os amigos tinham um semblante mais sereno agora que as palavras de Breno haviam trazido um pouco da vida da mãe de volta. Então, Breno concluiu: — Chegamos até aqui, porque ela nos ensinou como nos ensinou Bethânia naqueles anos de infância: a brincar de viver e a aprender a arte de sorrir cada vez que o mundo nos diz “Não”. Neste momento a vida me diz “Não”. Não a terei mais por perto. Não ouvirei mais a sua voz. Não direi mais “Manhê”. Mas, graças à minha mãe, aprendi que a história dela não tem fim, basta que eu responda ao que ela me ensinou no meu coração, e ela estará lá. Sim, ela ainda estará lá.
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 24/01/2016
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