Vitor Pereira Jr
Contos, Crônicas e Versos
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Meu bebê

       — Boa tarde, dona Neusa. Demorei, mas achei no mercado esse diacho de noz-moscada moída.
       — Obrigada por ter vindo me acudir, Magá. Vamo entrá. Logo meu bebê tá chegando.
       — Quer que eu comece passando uns pano nas mesa?
       — Não precisa. Eu já arrumei a casa toda hoje. Lavei janela, limpei móvel, tá tudo brilhando.
       — Ora, dona Neusa. De que adianta eu ser a faxineira se você limpa a casa toda?
       — Hoje você vem ajudar na cozinha. Vai temperando aquela abóbora cozida ali com essa noz-moscada enquanto eu termino de ponhá mais dois tipo de queijo nessa lasanha.
       — Mas essa janta de boas-vindas vai tá muito chique. Que vontade de agradar o filho, e não é assim mesmo, dona Neusa? Tá certo que Toninho deve querer matar a saudade da comidinha da mãe, mas cozinhar tanta coisa diferente assim é novidade pra mim.
       — Ora, Magá. Essas frescura não é pra ele, não. Você sabe que Toninho come qualqué coisa. Isso aqui é pra Sarah, a namorada dele. Primeira vez que ele vai trazer ela aqui. Mais de um ano namorando, planeja até casar, mas agora criou corage de mostrar a mãe pra ela.
       — Então a namorada de Toninho vem também?
       — E não vem? Mas só que essa menina é metida a madame, pediu um monte de produto especial pra eu estocar em casa enquanto eles tiverem aqui. Pediu requeijão, leite semidesnatado, e eu nem sabia que existia isso. Pediu pão integral. Mas eu faço. Falei pro Toninho: “Eu faço, meu bebê. Por você eu faço. Mas avisa a Sarah que aqui nós é tudo simples. Não tem coisa de rico aqui não, viu? Avisa ela que aqui é interiorzão mesmo, não é capital, não, viu? Não tem wi-fi, mas tem mosquito, lagartixa, sapo. Se ela quiser ficar aí, pode ficar, vem só você, filho. Mas se ela vier eu faço as comida que ela tá acostumada a comer”. E foi desse jeito.
       — Mas vai ser bom ver essa casa cheia de gente de novo, e não é assim mesmo, dona Neusa?
       — Nem me fale. Nem me fale. Me dá uma agonia ficar aqui sozinha nessa casa sem ter com quem proseá. Os menino morando tudo fora, e o Nelson passa o dia nos afazeres dele o dia todo.
       — Seu Nelson é sujeito quieto. Aliás, cadê o Seu Nelson?
       — O Nelson foi pescar e ainda não voltou. Uma hora dessas, pode? Pode um pai ser tão sossegado assim? Bem na hora em que o filho, que mora longe, vem trazer a namorada pela primeira vez aqui. Não podia ter deixado os peixe em paz por um dia? Ele é desse jeito. Acredita que ontem ele abriu a geladeira e já ia jogar fora o leite semidesnatado e o requeijão? Eu tive que impedir: “Já falei mil vezes. Isso é pro Toninho”. E ele: “Toninho não é fresco”. Aí eu: “Quis dizer que são as coisa que o Toninho pediu para comprar pra Sarah”. Aí ele: “Quem é Sarah?”. Eu não aguentei: “Sarah é a namorada do Toninho, homem. Não sabe que eles vêm passar o fim-de-semana aqui?”. “Eu sei. Não sou gagá”. Fechou a geladeira e voltou pro quarto. Foi desse jeito. Como esse marido me dá trabalho.
       — Pelo menos você agora só tem trabalho com um homem. Lembra quando os meninos moravam aqui, o trabalho que você tinha?
       — É, Magá, mas eu preferia quando meus menino morava aqui. Agora são tudo adulto e só falam de trabalho, estudo e dinheiro. Não vejo a hora de começarem a vir os neto pra gente ter outro assunto.
       — É a vida, dona Neusa. Quando eles são adolescentes a gente não vê a hora de ver eles saírem de casa. Quando eles saem, queremos eles de volta. E não é assim mesmo?
       — E é desse jeito. Mãe sofre, Magá. É amor doído. Mãe cria os filho, e os filho cria asa. E eu fiz de tudo por eles. Amamentei até os dois ano de idade pros bicho ficar parrudo, dei multimistura da igreja, dei biotômico pra ver se eles engordava. Reaprendi as tabuada, regra de três, briguei com professora da escola, com vizinho, com médico. Sacrifiquei minha vida por eles. Sacrifiquei. Aí depois que eles cresce e vira homem feito, quando a gente acha que eles vão retribuir o que a mãe fez por eles, vão tudo embora pras cidade grande e abandonam a mãe aqui sozinha.
       — Que é isso, dona Neusa. Seus filhos são uns amores. Toninho não tá vindo? Vira e mexe vem um filho aqui ver a senhora.
       — É, Magá. Mas agora só vem um de cada vez. E reunir eles tudo de novo? Marquinhos, o mais velho, era de esperar que fosse o primeiro a sair de casa. Menino estudioso. Passou de primeira no vestibular na capital e ficou por lá mesmo. Pois ele namorou a mesma moça, a mesmíssima moça, desde o primeiro ano da faculdade. Eu tinha um medo de que ele engravidasse a moça durante o curso. Até que casou com ela. Meu medo agora é de que ela nem queira embuchar. Depois foi o Sandro, logo o caçula. Esse eu achei que nunca ia sair de casa, que ia ficar sempre cuidando de mim, mas resolveu imitar o diacho do primo e virou caminhoneiro. Ele tira cada foto bonita desse país, mas me levar junto, não leva. Depois foi o Clóvis, sempre trabalhador. Desde cedo queria ganhar o próprio dinheiro. Nunca quis brinquedo de presente. Queria que a gente desse dinheiro pra ele. E guardava, viu. Quando virou homem, tratou de ir pro litoral e montar um quiosque na praia. Agora fala de morar fora do país. Então, o Toninho foi embora. Seguiu os passo do mais velho e foi estudar na capital. Toninho foi o que mais me deu trabalho. Sempre namorador. Sempre bicho solto. Eu tinha que ficar em cima dele pra ele estudar. Agora é estudioso igual o mais velho. E foi desse jeito.
       — Viu, dona Neusa? Você criou eles direitinho. Estão tudo encaminhado na vida. Você devia estar orgulhosa.
       — Orgulhosa? De ficar velha e ainda ter que aturar o velho sozinha? Fica essa casa aqui no maior silêncio, parecendo um museu. Não tem mais barulho de panela caindo, nem criança brigando, nem copo quebrando, nem suco derramando no chão pra eu limpar e me sentir útil, nem um joelho ralado pra eu passar metilate. Às vez eu tenho que fazer algum barulho nessa casa pra não me sentir num mausoléu. Outro dia quebrei um copo de propósito só para ter o que arrumar.
       — Daqui a pouco o Toninho tá aqui e você mata a saudade de arrumar as coisa dele. Quem sabe ele amanhece qualquer dia desses precisando de um carinho de mãe, de uma canja de galinha antes do almoço?
       — Já foi tempo disso, Magá. Depois que filho homem namora, não vem mais pra ver a mãe. Vem é passear com a namorada, e parece até que noivaram. Pouco mais de um ano de namoro e já noivaram. Agora vem aqui passar o final de semana e avisa que tem uma grande novidade que só pode contar pessoalmente. Aí tem. Será que...? Ai, ai, ai. Eu mal espero para ver esta casa cheia de novo! Tenho quatro filho homem e ninguém quer me dar um neto e alegrar minha vida mais uma vez. O que é que custa dar um neto pra mãe, um bacorinho pra ficar correndo de fralda pela casa, pra tomar banho de mangueira no quintal, ouvir minhas estória antes de dormir? Já até ponhei o champanhe na geladeira.
       — Champanhe, dona Neusa?
       — Pra comemorar o filho do Toninho!
       — Eles já tiveram um filho?!
       — Não, Magá, mas vão fazer. A Sarah deve tá é grávida. Eu sinto. Essa é a novidade.
       — Você quer que eu deixe o champanhe na mesa do jantar?
       — Não, Magá. Essa menina que o Toninho foi arrumar é enjoada mesmo. Meio chiquetosa. Vai ver ela é capaz de reclamar que o champanhe tá quente na hora de brindar. Deixa na geladeira. Aliás. Espera eu dar um sinal pra você trazer a garrafa. Não sei em que ocasião meu Toninho vai anunciar a novidade. Vou esperar ele contar, aí eu peço pra você trazer. Eu prefiro desse jeito.
       — Dona Neusa, tem alguém batendo na porta! Acho que eles chegaram. Quer que eu atenda?
       — Tem alguém na porta? Eu atendo. Só pode ser o Toninho. Põe a lasanha pra assar. Toninho? É você meu filho! Você chegou! Meu bebê, como você tá diferente! Tá magro, filho. Tá comendo direito?
       — Mãe... Você não mudou nada. A Sarah você já conhece.
       — Oi, dona Neusa, é um prazer conhecer a sua casa.
       — Oi, filha, tá mais bochechudinha, as coxa mais grossa. Olha, não deixa meu Toninho ficar magro desse jeito, viu? Você é letrada, prendada, tem que cuidar do seu amor. Ô, Magá! Vem ajudar com as mala.
       — Mãe, não precisa. Ô, Magá. Não precisa, não. Mãe, por que a Magá está aqui? Você chamou a Magá pra trabalhar em um sábado à noite?
       — Ora, filho, Magá é quase da família. E, além do mais, eu chamei ela pra me ajudar na cozinha. Agora, ajude sua mulher com as mala. Sarah não deve pegar peso, ainda mais se... Se...?
       — Vamos deixar as novidades para o jantar, mãe. Agora, onde está o pai?
       — Ah, sabe como é o seu pai. Deve ter ido ao mercado comprar algum tempero que a Magá precisava. Sabe como seu pai gosta de agradar as visita. Não quer deixar faltar nada. Ele é desse jeito.
       — Tem certeza de que ele não passou o dia pescando?
       — Vamo mudar de assunto? Vocês não querem desafazer as mala, conhecer o quarto de dormir, lavar as mão? Já vamos servir o jantar. Vão, vão.
       — Dona Neusa, a mesa está pronta. E reparou como essa namorada do Toninho é bonita?
       — Sim, ele vai ser lindo demais.
       — Ele quem, dona Neusa?
       — Ora, Magá. O meu neto!
       — BOA NOITE, POVO FEIO!
       — Que susto, Nelson! Isso é jeito de chegar em casa, homem?
       — Pai? É você?
       — Truxe a janta! Neusa, põe os peixe pra assá.
       — A janta tá pronta, já, Nelson. Não lembra que a Magá ficou de vir pra me ajudar na janta especial do Toninho e da Sarah?
       — Quem é Sarah?!
       — Pai, essa é a Sarah, minha noiva.
       — Ô, mas é você a muié do meu filho? Gosta de peixe?
       — Nelson, vá guardá esses peixe no freezer dos fundo, pois que a Magá já ponhou a mesa. E vocês dois, vamo chegando. Se assentem, fiquem à vontade. Fizemo carneiro, lasanha de quatro queijo, que a Sarah pediu, e salada.
       — Que delícia, mãe. Vamos nos sentar aqui. E obrigado por pensar na Sarah.
       — Ora, eu faço tudo pela minha nora. Ainda mais que ela vai ser... ela vai ser, não é? Vocês não vão demorar em...?
       — PÔXA, QUE EU TÔ COM UMA FOME DANADA!
       — AI, NELSON! Pára de querê me dá susto, chegando desse jeito, seu velho! Senta logo aí! E vê se não come todo o carneiro que eu fiz pra Sarah. E aproveita a visita do seu filho. Agora, conta pra nós, filho, como tá as coisa na cidade grande?
       — Estamos bem, mãe. A Sarah e eu gostamos muito de morar na capital. Temos muitos planos daqui pra frente.
       — Que ótimo! Que planos? Você e a Sarah estão pensando em fazer um... um...?
       — Mestrado? Ah, sim. Eu vou tentar para este ano. Já a Sarah tem outros planos. E por aqui? Quais são as novidades?
       — Nasceu o terceiro neto da Magá. Terceiro, já. Como deve ser bom ser avó. Aliás, Sarah, agora que você vai fazer parte de nossa família, aqui tem tudo o que você precisa. As comida tudo do jeito que você gosta. Sem gordura, sem muito sal. É dieta isso, é? Tá se cuidando por algum motivo escondido? Conta, filha.
       — Ó, dona Neusa, parece que não consegui esconder de você, não é? Estou mesmo tendo que cuidar da minha saúde porque...
       — MAGÁ!...
       — Toninho, meu amor. Por que não contamos logo para sua mãe nossa notícia especial?
       — Que bênçã! Que bençoados! Por que não pega mais um pedaço de carneiro, querida? É uma carne tão nutritiva!
       — Mãe, o caso é que a Sarah e eu temos uma grande novidade para o ano que vem.
       — MAGÁ!...
       — A novidade é que a Sarah e eu conseguimos financiar um apartamento perto do centro, e isso nos possibilitou adiantar o casamento para o ano que vem! Não é o máximo? Vocês poderão ter até um lugar para ficar na cidade durante a semana do casamento!
       — Chamou, dona Neusa?... Dona Neusa?
       — Sim, Magá. Bem, Magá... Traga a cidra para comemorarmos a novidade.
       — Dona Neusa, seu carneiro assado ficou mesmo uma delícia. Não estou mesmo resistindo e vou aceitar um segundo pedaço.
       — Não faça isso, querida. Se comer demais vai virar um bujão e acabar não entrando no vestido de casamento. É desse jeito. Agora, prova esse agrião. De sobremesa tem fruta.
       — Toninho, meu filho. Acho melhor tu dormir cedo que amanhã nós vamo caçá no mato com o tio Bastião. Demora muito na prosa, não. Boa noite, vocês tudo.
       — Boa noite, pai. Mãe, acho que vamos dormir cedo mesmo. A Sarah está cansada também. Amanhã vocês põem o papo em dia. O que acha, querida?
       — Sim, estou mesmo exausta da viagem. O ônibus chacoalhou muito na entrada da cidade e fiquei enjoada. Dona Neusa, eu vou me retirar. A janta estava deliciosa. Boa noite. Com licença.
       — Tchau, Sarah. Até amanhã. E você, filho? Já vai dormir também?
       — Sim. Também estou um pouco cansado da viagem.
       — Tem certeza de que você não quer me contar mais nada?
       — Contar mais? Mãe, está tudo bem. É sério. Não há nada de errado comigo ou com a Sarah. E você, quer dizer alguma coisa?
       — Bem, eu... Eu fico preocupada com vocês, né? Eu queira saber se...
       — Se...?
       — Nada. Dorme com os anjo, filho.
       — Mãe, eu sei que a gente se vê pouco agora, mas é que estou estudando pro mestrado e a firma está com consultorias novas e... Olha, você sempre vai ser minha mãe. Você não me perdeu, entende? Você nunca vai me perder. Logo a Sarah vai ser da família e vocês vão se entender. A Sarah também está muito atarefada ultimamente, está pensando em abrir uma loja com as amigas da faculdade, mas mesmo com uma vida corrida, a gente vai sempre se ver.
       — Mas é que eu me preocupo se um dia vocês vão...
       — Eu sei. Você é mãe. É sua função ficar preocupada. Mas não se preocupe. Estamos bem. Foi você quem trocou minhas fraldas, me ensinou a comer brócolis, a amarrar os sapatos, a lavar a própria roupa, e me colocou na linha. Eu estou com a garota mais maravilhosa e inteligente que conheço e temos um bom emprego... Deu tudo certo, como você sempre quis. Você conseguiu, é a melhor mãe do mundo. Eu te amo, mãe.
       — Também te amo, meu filho. Mas você sabe que mesmo com esse tamanhão todo, você será para mim sempre o meu bebê. O que posso fazer? Eu sou desse jeito.
       — Eu sei. Boa noite, mãe. Beijos.
       — Boa noite, querido. Beijos.
       — Boa noite, Magá!
       — Boa noite, Toninho. A senhora precisa de mais alguma coisa, dona Neusa?
       — Sim, Magá. Onde ponhei a minha agenda telefônica?
       — Tá em cima da estante, dona Neusa. Por quê?
       — Vou telefonar pro Marquinho. Faz três dia que ele não telefona, parece até que esqueceu que tem mãe. Eu quero falar umas coisa pra ele. Faz quatro ano que o danado tá casado, e o quê?
       — E o que o quê, dona Neusa?
       — Como assim e o quê, Magá? Eu quero o meu neto!
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 29/01/2016
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