Vitor Pereira Jr
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Bloghilda
       Ser uma garota de vinte e poucos anos é esquisito. A gente sente saudades das coisas de criança, da época romântica da adolescência, e ao mesmo tempo temos que mostrar o quanto já somos adultas. Quando o assunto é amor temos o mesmo dilema. Não somos mais aquela garotinha brincando de boneca, nem a adolescente desenhando coraçõezinhos nos cantos do caderno. Já nos apaixonamos, já nos decepcionamos, mas, se nos lembrarmos de levar essas experiências como parte da bagagem de mão nas próximas aventuras, nos sentimos cada vez mais maduras e independentes. Talvez eu esteja passando por uma fase em que penso demais sobre isso: sobreviver ao primeiro ano da faculdade e ainda gostar de alguém que me complete e não apenas me ajude a passar o tempo, sabe.
       Para ajudar a passar o tempo, eu escrevo. Sempre gostei de escrever sobre minhas experiências em minhas dezenas de diários até aqui. Sim, dezenas. Escrevo desde os nove anos e nunca parei desde então. Aos doze anos, cheguei a gastar três cadernos de diários antes de o ano acabar. Pela primeira vez. Guardo todos eles com carinho, como parte de mim, e de quem passou pela minha vida. Um dia, uma amiga minha da faculdade olhou para minha estante lotada de livros e teve uma ideia:
       — Por que você não cria um blog?
       Um blog? Tá doida? Compartilhar minha vida e meu coração com desconhecidos em uma rede mundial?
       — Pense nisso como uma terapia. Para você e para seus leitores. Você pode falar sobre suas experiências, seus sentimentos, suas dicas sobre filmes e livros. E sobre o que você sabe sobre o amor.
       No fundo achei a ideia legal, mas só tinha um problema: eu ainda não havia me esbarrado com um grande amor. Se um dia fosse escrever um blog sobre a minha vida, eu deveria ser honesta e começar assim: “Sou uma garota legal e sóbria na maior parte do tempo, só não encontrava o meu grande amor”.
       E foi assim que, de uma conversa de amigas entre a matéria da prova e batidinhas de morango, nasceu o meu blog. Apresentei-me ao mundo assim: Cinéfila, batalhadora, libriana com lua em Aquário, em busca do grande amor, essas coisas. Eu tinha uma categoria para meus filmes suecos preferidos; uma categoria para os móveis usados que eu comprava e depois pintava; uma categoria para as resenhas dos livros que eu lia e para os filmes que saíam no cinema; uma categoria de poemas; e, o principal, uma categoria reservada para compartilhar meus sentimentos mais profundos sobre a vida, amizade, e amor. Contava sobre minhas experiências de vida desde a infância e sobre como dividir o tempo entre os estudos e as paqueras. Em poucos meses, havia centenas de seguidores e leitores assíduos. Metade era de outros blogueiros, a maioria meninas, com os quais eu trocava experiências de como administrar um blog e ao mesmo tempo dar atenção aos comentários. E os comentários me ajudavam e me incentivavam a escrever mais textos.
       Um dia, um leitor comentou que achava escapismo eu fazer tantas comparações entre os filmes e a vida real. Então eu escrevi um texto que começava assim:
        “Para quem acha viajado desejar que a vida deveria ser como os filmes em que você se identifica com a personagem a ponto de chorar, eu pergunto, por que não? A vida é mesmo um filme. O seu filme! E você é o ator principal da sua estória. Faça da sua vida o roteiro que você gostaria que fosse escrito. Comédia? Romance? Se for comédia romântica melhor ainda”.
       Eu realmente acredito nisso.
       Outro dia, uma blogueira que eu sigo e é minha inspiração para escrever cada vez melhor, perguntou em um comentário por que eu achava que encontrar o grande amor era uma questão tão importante, que apenas deveríamos deixar que o amor nos encontrasse, casualmente. Droga. Eu a invejava como Virgínia Woolf invejava Katherine Mansfield. E do fundo do coração, respondi o que sentia, o que eu realmente sentia:
        “Quanto mais a gente cresce, mais se perde na multidão, e percebe que cada um de nós é um pontinho vagando no meio de uma página em branco, e tudo o que a gente quer é achar outro pontinho e se juntar a ele, para formar dois pontos e começar a enumerar seus sentimentos. Eu só quero achar o pontinho que vai escrever uma história comigo”.
       O resultado é que o blog estava sendo um sucesso. Ele era meu novo diário, meu novo confidente. Parafraseando Clarice Lispector, eu não era mais uma menina com um blog: era uma mulher com seu amante.
       Quando eu não estava escrevendo ou estudando, saía com minhas amigas para paquerar, e, às vezes, com uma galera maior só para provar os drinques do novo barzinho da cidade e virar a madrugada dançando como se ninguém estivesse olhando. Nós combinávamos isso. Toda a galera ia para o meio da pista e dançava como bem entendesse, por mais ridículo que fosse, como se ninguém estivesse olhando. Eram as noites mais divertidas da minha vida.
       Em uma dessas noites, essas que deviam ser só de bebedeira e dança, estavam também uns formandos comemorando o último mês de faculdade. E é aí que os corações das meninas de vinte e poucos anos disparavam como se tivéssemos trinta e poucos anos. Eu não estava a fim de ficar com ninguém, mas a qualidade da oferta estava exigindo uma demanda, entende? Então, após muita procura com os olhos, minha amiga apontou para um cara que, segundo ela, seria meu próximo candidato-a-futuro-grande-amor-frustrado. Lá estava ele.
       Loiro, alto, mais ou menos um metro e oitenta, olhos cor de mel, ombros e sorriso largos.
       — É aquele grande? — perguntei. Na verdade, acho que gritei e ele ouviu, porque ele riu. Talvez eu tivesse também apontado para ele com o copo na mão e derrubado a cerveja.
       Fiquei com vergonha – eu, com vergonha?– por ele ter me encarando, então fiz que nem era comigo. Virei de costas e fingi que estava batendo o maior papo intelectual com meu amigo cinéfilo. De repente, senti uma sombra gigante se aproximando e quando eu virei era ele, o Grande. Estudava no terceiro ano. Veio com uma vodca gelada para mim e uma conversa fiada de que era fã de ficção científica. De Huxley, acabamos pulando para Douglas Adams, e da vodca acabei pulando para a boca dele.
       Loiro, alto, mais ou menos um metro e oitenta, olhos cor de mel, ombros e sorriso largos, a barba rala para não arranhar, vozeirão, braços fortes e mãos macias.
       Depois da noitada, vieram as trocas de mensagens durante a semana. Eu já estava para escrever sobre aquela noite em meu blog, mas prometi a mim mesma que só escreveria novamente sobre meus sentimentos românticos quando eu encontrasse o meu grande amor. Antes disso, dedicava-me nas resenhas e dicas da nova cor que eu deveria pintar meu banquinho recém-comprado na loja de móveis usados e que ficaria na sacada da sala. E entre um texto e outro, eu trocava mensagens de paquera com ele, o Grande, até que senti a confiança de que poderíamos voltar a nos encontrar. Loquei um filme que queria assistir faz tempo e o convidei para conhecer a bagunça do meu apartamento.
       — Oi, Grande? Trouxe um vinho? Que gentileza! Hoje vamos assistir a um filme francês dos anos cinquenta.
       — Garota, você não é nada clichê — ele riu, mas percebeu que eu não estava brincando, admirado com a quantidade de livros e com a coleção de filmes em preto e branco, a maioria suecos, que eu tinha na minha estante.
       Passamos a noite nos beijando e conversando no sofá sobre nossos interesses, sonhos, e frustrações. Ele gostou de saber que eu tinha um blog, e até leu alguns textos meus. Disse que era meu novo fã número um. E eu gostei mais ainda de saber que ele tinha sido um baixista em uma banda que durou apenas dois anos, mas que já havia tocado nos bares da cidade. Claro que ele teve que improvisar no meu velho violão empoeirado. Ficamos nesse papo-furado que só se tem com quem se tem intimidade, essas coisas de traumas de infância, vontade de morar em outro país, e sobre qual apelido nós daríamos um ao outro. Como nós dois gostamos de literatura nórdica, só algumas das coisas em comum que descobrimos um do outro, decidimos após algumas taças de vinho:
       — Ei, gata, você é minha Brunhilda.
       — E você é meu Siegfried.
       — Brunhilda, a blogueira. Vou te dar o apelido carinhoso de Bloghilda.
       — Siegfried, o fã da blogueira. Você será meu Siegfã.
       — Estou me apaixonando por você, Bloghilda.
       — E você já tem tamanho pra se apaixonar?
       — E eu não sou o seu Grande?
       Droga! Xeque-mate. Ele era.
       Os próximos meses passaram voando e já começávamos a assumir publicamente que estávamos mesmo namorando. Como eu me sentia segura em seus abraços e carícias! E nós sempre tínhamos um papo cabeça sobre filmes e livros, sobre quase tudo um pouco. Acho que Nietzsche estava certo quando disse que só existia uma única pergunta a se fazer antes de escolhermos continuar ficando com alguém: “Continuarei tendo prazer de conversar com essa pessoa não importa quanto tempo passe?”, porque todo o resto iria passar. Nunca havia namorado alguém por mais de um ano. E passou tão rápido! Eu havia escolhido continuar.
       Mas ele não. Porque em um dia cinzento de inverno, com quase um ano de namoro firme, enquanto estávamos abraçados na minha cama, ele simplesmente começou a ficar distante, vago, evasivo.
       — E aí, meu Grande? Qual o problema? É a monografia? Seus pais? Seu chefe?
       Ele me olhou bem na alma, atirando em mim com aqueles malditos lindos olhos cor de mel, e, sem precisar dizer nada, eu tive a resposta que não esperava.
       — Olha, garota. Não há nada de errado com você. Sou eu. Eu só preciso de um tempo pra pensar.
       — Você sabe que eu odeio clichês.
       Ele disse algo engraçado e não convencional antes de sair, para parecer mais maduro, mas eu não me lembro do que era. Eu estava surda de raiva! Eu sabia que não devia mesmo ter escrito nada sobre ele. Seria mais uma desilusão compartilhada. Eu chorei, é claro. Depois abafei meu grito de frustração na primeira almofada que encontrei. Também liguei o som no último volume e dancei que nem uma bêbada pela casa toda, tentando exorcizar meus demônios e poder racionalizar tudo aquilo. Então, de repente, já cansada e zonza de rodopiar pela sala, eu sentei no sofá e refleti sobre mim e sobre nós dois. Na verdade, eu não queria que aquilo tudo acabasse. Nós éramos ótimos juntos. Aquilo era nossa vida. E eu não ia aceitar de bandeja que tudo fosse acabar assim, sem explicação. Eu poderia aguardar insanamente que ele respondesse minhas mensagens desesperadas, ou eu poderia ir até a casa dele esperando que ele dissesse alguma bobagem para eu ter boas razões de enfiar um soco naquele queixo.
       Como tinha orgulho de não ser mais uma adolescente ingênua, escolhi a segunda opção.
       — Por que você terminou comigo, seu puto? — gritei, logo que ele abriu a porta.
       Dois segundos em silêncio pensando depois, ele finalmente respondeu:
       — A verdade é que eu ainda gosto de você. A verdade mesmo é que acredito que eu te amo. Mas pensar em nós dois daqui pra frente me assusta às vezes. Antes, eu sabia o que fazer da minha sem você. O que eu não sei é o que fazer da minha vida com você. E isso me dá medo, não saber mais quem eu sou.
       Medo, o pai sem-noção de todos os vacilões.
       — Cara, nós nunca mais seremos os mesmos, acabamos de entrar na casa dos vinte. Nossos relacionamentos nunca mais serão como antes. Isso assusta? Assusta. Sentir medo é humano. Mas isso não é motivo para você desistir de você, ou de mim. Apesar de eu ter uma montanha de livros na estante, nenhum deles é o manual da vida. Eu também tenho medo do que vem pela frente, mas acho que esse friozinho no estômago faz parte do descobrir quem seremos. E você, você é o cara mais mente aberta que eu conheço. Mas às vezes é tão cabeça dura que esquece que é humano. E se você quer saber quem você é agora e quem eu sou de verdade, vamos descobrir esse lance louco juntos. Do contrário, você vai estar sempre errado sobre você. E sobre mim.
       — É, você é bem convincente. Então, eu acho que posso tentar aceitar isso. Eu topo me aceitar de volta. Mas e você? Você vai me aceitar de volta?
       — Claro que vou, seu bobo. Mas não vou fazer isso por você, porque você não merece. Você precisa. Também não vou fazer isso por mim, porque eu não preciso. Mas mereço. Vou fazer isso por nós.
       E fiz. Mesmo não sendo o amor perfeito. Mas a filosofia já dizia que uma vida perfeita é viver buscando a vida perfeita. E eu não ia desistir da minha busca. Não ia desistir assim tão facilmente do meu amor até saber se ele ia crescer ou não. Como um jardim, o amor precisa de atenção e cuidado – o amor precisa de amor. E eu não ia deixar de amar. Já dizia Victor Hugo que ante a todo o desamor do mundo, bastava contentarmo-nos com o nosso amor. E eu estava contente com o meu.
       Recomeçamos devagar, como um paciente que se recupera de um osso quebrado. As feridas cicatrizaram em menos de dois meses, mas mesmo assim, após mais de um ano juntos, eu ainda não me sentia segura em escrever sobre ele, em compartilhar meus sentimentos sobre ele. Eu havia mantido a promessa de que só voltaria a escrever sobre minhas expectativas sobre o amor quando eu encontrasse o primeiro grande amor da minha vida. E para que isso acontecesse, o amor devia vir até mim, casualmente, como fui aconselhada um dia.
       E foi nas vésperas do Dia dos Namorados, após eu ter publicado um texto sobre a influência da literatura medieval no ideário romântico moderno, que me deparo com um comentário de quem nunca havia comentado nada em meu blog antes:

        “Bloghilda,
       Sei que você não curte clichês, mas saiba que muitas mulheres passam a vida esperando seu Príncipe Encantado sem saber que nós homens também esperamos nossa Princesa Encantada, porque não seremos heróis destemidos nem cavaleiros de armadura brilhante o tempo todo. Às vezes também nos perdemos na floresta sombria e precisamos ser resgatados, salvos, e despertados pelo verdadeiro amor. Obrigado por ter escolhido ser minha Princesa Encantada. Obrigado por ter me salvado sempre que eu precisei. Sei que nem sempre posso ser forte o bastante, que houve momentos em que meus sentimentos vacilaram, mas lembro também que você sempre esteve lá me resgatando gentilmente todas as vezes, lutando por mim, seja qual fosse o desafio, me acordando para a vida através do seu infinito amor. Às vezes penso se mereço mesmo tudo isso, um amor tão verdadeiro assim, então eis um prêmio de loteria que não se deve trocar por nada no mundo: um amor que se revele para a vida toda. Você é minha princesa-guerreira, minha rainha, meu anjo, minha deusa. Vamos passar mais um Dias dos Namorados juntos, e continuo me apaixonando por você todos os dias. Sei que não importa quanto tempo passe, sempre poderei contar com você, em toda a sua alma e em todo o seu ser. Quantas pessoas podem mesmo dizer que acordam com uma deusa ao seu lado todos os dias? E eu sempre serei grato por isso, porque você me faz ser um homem melhor, quer dizer, um avatar com mais experiência. Conte comigo para o resto da sua vida. Não importa quantos desertos e vales existam, sei que passarei por todos com você ao meu lado. Que venham mais dezenas de Dias dos Namorados assim, encontrando e mantendo o verdadeiro amor.
       É o que almeja seu nobre Siegfã.
       -   .     .-   --   --- ”.

       Meio que paralisada, atônita, confesso que fiquei uma eternidade degustando esse delicioso aperitivo, degustando e degustando o sabor de seu comentário umas três vezes antes de digerir. Sério. Era ele. Lendo o meu blog e comentando com uma declaração de amor. Só demorei em perceber que os traços e pontos no rodapé não eram erros de digitação. Para escapar do clichê, meu grande escreveu “Te amo”, só que em Código Morse. Droga, às vezes eu gosto quando ele escreve coisas mais inteligentes do que eu. Como agora.
       Então eu fiz o que qualquer mulher com maturidade e um blog faria. Eu escrevi sobre ele, meu Grande. Meu primeiro Grande Amor. Finalmente.
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 01/02/2016
Alterado em 02/02/2016
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