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DRIVE – Resenha crítica do filme (com spoilers)
Ano de produção: 2011
Direção: Nicolas W. Refn
Estrelando: Ryan Gosling e Carey Mulligan


Sinopse:

       Um solitário mecânico e ator dublê de cenas de ação (Ryan Gosling), e que também presta serviços como motorista de fuga em assaltos, começa a se envolver emocionalmente com sua vizinha (Carey Mulligan). Quando o marido dela deixa a prisão, está devendo uma grande quantia de dinheiro para a máfia, que passa a ameaçar sua mulher e seu filho. O ator resolve ajudar a família oferendo para os mafiosos seus serviços nada convencionais de motorista de fuga para o próximo assalto do qual o ex-presidiário deve participar. O assalto não sai como esperado, causando a grande e brutal reviravolta da trama.


Resenha crítica (com SPOILERS):

       “Drive”, de Nicolas Refn,  é a adaptação cinematográfica do romance de mesmo nome escrito por James Sallis em 2005. Foi premiado em Cannes e aclamado pela crítica mundial. Seu estilo noir moderno, com jogos de luz e sombra, com poucas falas e intercaladas com longos momentos de silêncio, marca o drama muito mais por sua fotografia do que pelo seu roteiro. Mas a escolha do diretor foi justamente esta, dar importância à forma de como contamos a história de alguém. E é também disso que se trata o filme, das escolhas que fazemos, de como você dirige (DRIVE) sua vida. A trilha sonora é outro grande trunfo do filme. Ao típico estilo das viciantes batidas eletrônicas dos anos 1980,  todas as músicas foram escolhidas para retratar cada momento psicológico da trama. A trilha tema, “A Real Hero”, do College e do Eletric Youth, por exemplo, é a trilha total do filme, rogando ao espectador que ele também possa provar ser, diante das adversidades e das complexidades da vida, um ser humano e um herói autênticos.
       Ryan Gosling interpreta o protagonista do qual nunca será mencionado seu nome. Por isso ele interpreta o viajante anônimo e solitário que somos todos nós, conhecidos unicamente por nossas ações, pelas marcas que deixamos no mundo por meio de nossas escolhas. Gosling é também o mítico herói americano, o “self-made man” americano. O homem que se basta, que sabe fazer a própria vida de acordo com sua própria vontade, por isso ele aparece sem família nem filhos. É a história individual dele. Em algum lugar do desértico oeste americano, ele é ao mesmo tempo o mesmo cowboy do oeste americano do passado e o Mad Max do oeste americano do futuro distópico. Ele é o eterno cavaleiro solitário que, na época motorizada, ao invés de um alazão, ele cavalga seu mustang pelas ruas de Los Angeles. E no lugar de um cigarro de palha, ele carrega na boca um palito de dentes.
       Não se pode, contudo, deixar de analisar que esta é apenas uma faceta do mito do herói. De fato, é até mesmo uma faceta do mito masculino de herói. E esse foi o grande pecado do diretor: inserir um evitável sexismo que acompanha todo roteiro. O protagonista não passa do típico machão independente que não presta contas a ninguém, e tem o controle racional e prático de sua vida e das consequências de suas ações. Todos os homens do filme são rudes, brutos, dominadores, sem vínculo marital ou familiar. A única criança no filme é o filho da vizinha, criado basicamente pela mãe, é terno e tímido, tipicamente feminilizado, e isso é logo corrigido pelo roteiro quando o menino é iniciado pelo protagonista aos rituais masculinos. O protagonista logo oferece ao menino, que já havia lhe admirado instantaneamente, que ele masque o palito que o protagonista sempre traz na boca, uma alusão velada ao símbolo de macheza e independência ao maior estilo Marlboro, andar por aí com um cigarro na boca. As duas únicas personagens femininas no filme são vítimas ingênuas de suas escolhas erradas, exercem um papel coadjuvante das escolhas masculinas. A vizinha é a esposa maternal e doce de um criminoso, uma garçonete que só sabe servir aos outros, uma donzela esperando eterna e pacientemente ser salva por um cavaleiro de armadura brilhante.
       Mas também é possível analisar que essa visão fatalista do mito masculino e feminino transpõe o sexismo e se apresenta como uma condição humana em geral. A narrativa do filme tem essa missão, a de mostrar ao espectador a fatalidade pessimista da natureza humana e das escolhas feitas ao longo da vida. Você pode concordar com essa visão ou não, mas é essa a visão adotada pelo diretor, a de que ou você é a rã ou você é o escorpião.
       São nítidos os momentos da narrativa em que o protagonista veste a jaqueta com o desenho de um escorpião nas costas. E caso o espectador não tenha percebido o seu significado, o próprio personagem remete à fábula em uma conversa com um dos mafiosos. A fábula é conhecida. Era uma vez um escorpião que queria atravessar um rio. O escorpião pede para uma rã (na fábula original, uma tartaruga) que está na margem que o deixe subir em suas costas enquanto ela nada pela superfície até o outro lado. A rã hesita alegando que o escorpião é um animal traiçoeiro e apenas deseja enganá-la, ferroando-a enquanto ela estiver desprevenida nadando pelo rio. O escorpião contrapõe alegando que se ele ferroasse a rã nestas condições ele estaria ferroando a si mesmo, pois ela afundaria e ele consequentemente também morreria, portanto, confiar que o escorpião não a trairia seria a opção mais lógica. Diante deste argumento, a rã fica convencida e permite que o escorpião suba em suas costas enquanto ela nada pela superfície do rio, agora despreocupada. Porém, no meio da travessia, o escorpião ferroa a rã. Enquanto ela afunda desconsolada, agonizando, pergunta ao escorpião o que ele ganhara com essa escolha, já que ele também morrerá. Em resposta, o escorpião pede para que a rã não o culpe, pois ele só estava cumprindo a sua natureza, era só isso o que ele sabia fazer.
       A rã representa nossa natureza pura, com capacidade de atravessar o rio da vida sem dificuldades mas que também é suscetível de ceder a escolhas ruins. Já o escorpião representa nossa natureza perversa, violenta e egoísta. O escorpião representa as ações viciosas que fazem mal não só aos outros mas a nós mesmos.
       Quando o protagonista veste a jaqueta de escorpião ele está aceitando o risco mortal de deixar que as ações viciosas o dominem – o escorpião está em suas costas. No final do filme, ele cede tanto à essas ações que sua jaqueta está ensopada de sangue, de tantas ferroadas que ele já deu. A única saída que ele tem, já que as consequências finais de suas ações causam a morte das pessoas, é desistir de atravessar o rio da vida com sua doce vizinha, já que ela seria também ferroada mais cedo ou mais tarde. Na cena final do filme, vemos que ela o procura mais uma vez, e só desiste porque ele não está mais lá. Ou seja, ela termina sua história continuando a ser a rã ingênua disposta a arriscar-se em escolhas com desfechos previsivelmente desastrosos. Assim também termina a história do protagonista. Com ele acompanhamos a trajetória desastrosa de várias rãs e de vários escorpiões que cruzaram seu caminho, vítimas de suas más escolhas. Sua única escolha heroica mesmo, foi proteger a doce vizinha, para chegar à conclusão que o único meio de protegê-la é não estar com ela, já que ele também é um escorpião, só que ele tem consciência disso. Ele se mostra, assim, um ser humano e um herói autênticos.
       Refn entrega o que promete: uma fotografia da natureza humana e das escolhas possíveis que fazemos. Se você esperava um romance ou um final feliz, você se enganou. O filme trata do drama da vida e do quão bruta e injusta a vida pode ser sobre o ser humano. E dentro da condição humana, desta rude e impessoal condição humana, ser um herói autêntico é procurar trazer o equilíbrio de volta dentro de um mundo desequilibrado, e isso não significa conseguir o que se quer, isso não significa ficar com seu amor no final. O heroísmo da humanidade se trata apenas em ter que atravessar o rio das adversidades e das incertezas da vida, e conseguir chegar do outro lado, seja você uma rã ou um escorpião.
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 26/08/2016
Alterado em 26/08/2016
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