Vitor Pereira Jr
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O último abraço

       O último abraço, embora não quisesse, sabia bem no fundo mais apertado da alma que era o último abraço. Por esta razão não foi um abraço qualquer.
       Aconteceu em uma manhã cinzenta e chuvosa. Eu, chegando na meia vida, e vovô, no termo. Ele, que sempre parecia estar onde queria estar. Ele que, como poucos podem dizer, viveu uma vida plena. E, como se tivesse escolhido viver até ali, escolhia de bom grado estar ali, na linha de chegada.
       Mas o último abraço não começou como abraço. Começou com apertos de mão, cafunés, beijos no rosto, graças e juras. Só no final ele veio – o último abraço –, zeloso, demorado, doído e solene. Abraço que assou pão, cuscuz, que pintou quadros, que montou miniaturas, que estudou italiano sem precisar, que lia por prazer, que debatia História, que ouvia música clássica, que assistia ópera, que levou os netos a teatro, balé e museu, que criticava com dureza meus poemas e meus contos, e que sempre gostou de meus desenhos; abraço que foi meu exemplo, que foi meu padrinho de crisma, que dividia as leituras da missa comigo todo domingo; abraço que acalentou meu filho; que zelou esposa, filhos, netos e bisnetos; aquele abraço no topo da escadaria, na chegada e na saída. Mas, como último abraço, era um abraço de nunca mais. Nunca mais escutaria sua voz ou aspiraria seu cheiro, nunca mais sentiria sua respiração, seu calor, nem cada parte ou forma de seu abraço em meu abraço. Nossos corações nunca mais se sentiriam batendo um contra o outro. Com ele se iam o pão assado, as músicas clássicas, as óperas, as leituras. Nada disso eu levaria, tudo mortal.
       Assim foi o último abraço, um adeus à mortalidade, às coisas frágeis. Um adeus desabraçado. Mas o que ficou abraçado em mim quando vovô dispersou-se de volta ao universo, não foram as coisas frágeis e mortais, foram justamente os tesouros que não se corroem nem ninguém nos pode tirar: a honestidade, a determinação, a honradez, a dignidade, a lealdade, a sapiência, a integridade, o zelo, a bondade, o senso de dever. Esses tesouros foram a herança que abracei. E, abraçados em mim para sempre, para minhas futuras gerações os entregarei, como abraços. Imortais.

Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 14/07/2017
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